Nov 13

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo XVII

Capítulo XVII

FINAL DO SÉCULO XIX – O fim para um novo recomeço.

 

O século XIX fio marcado por profundas mudanças políticas, sociais, culturais e econômicas, onde guerras e diversos conflitos provocaram grandes mudanças geopolíticas nos mapas globais. Também é fato de que após a segunda metade deste século as questões de ordens políticas foram abrandadas e quando muito suplantadas por questões de ordens econômicas e sociais, devido a Revolução Industrial que alastrou-se por toda a Europa e ao Novo Mundo, Revolução esta que trouxe grandes avanços nas questões de produção em massa, possibilitando a aquisição de diversos produtos, por quem outrora, já mais poderia imaginar.

Este grande desenvolvimento industrial em contra partida demandou para muitos enormes sofrimentos, pois acarretou inúmeros desempregos e grandes dificuldades financeiras devido aos baixos salários e a exploração de muitos trabalhadores, que eram obrigados a enfrentar jornadas de trabalhos desumanas como 18 horas de trabalhos. Este desenvolvimento industrial trouxe a muitas cidades um crescimento desordenado, devido a pouca infra-estrutura disponível. A esta conjuntura de falta de emprego, baixos salários, falta de infra-estrutura básica como moradias, saneamento e outros trouxeram a sociedade os mais altos níveis de pobreza, onde a insegurança e a violência cresciam vertiginosamente. È também neste difícil cenário que surgem as primeiras tentativas de criações de sindicatos e associações de classes, a fim controlar os salários e as altas jornadas de trabalho nas indústrias.

Embora houvesse relativa paz no continente europeu, pois conflitos entre nações houvessem cessado, em algumas colônias, principalmente africanas estes conflitos seguiam como, por exemplo, A Guerra dos Bôeres, também conhecida como: Guerras Boers, que foram dois confrontos armados na África do Sul, que opuseram os colonos de origem holandesa e francesa ao exército britânico, que pretendia apoderar-se das minas de diamantes recentemente encontradas naquele território. A Primeira Guerra dos Bôeres deu-se em 1880 a 1881 e foi ganha pelos Boers. A Segunda Guerra dos Bôeres, entre 1899 e 1902 levou à anexação das Repúblicas Bôeres do Transvaal e do Estado Livre de Orange, à Colônia Britânica do Cabo. Em virtude da Revolução Industrial ocorrida primeiramente a Inglaterra, o processo de produção e aumento bélico facilitou sua vitória na Segunda Guerra dos Bôeres.

Em face destes acontecimentos e outros de menores destaques originavam em parte da população já no final do século XIX, um profundo descontentamento de cunho social, que viria a se aprofundar na primeira década do século seguinte.

O final do século XIX não apresenta mudanças significativas nos vestuários masculinos e femininos em relação do período que o antecedeu, o Romântico. Onde as rígidas e restritivas normas dos vestuários femininos eram seguidas e as crinolinas reinavam absolutas dando as mulheres, uma silhueta mais curvilínea e pouco natural.

Os calçados masculinos ao exemplo do vestuário não apresentaram também grandes alterações a não ser pelo fado de que por volta de 1885, os bicos dos calçados foram alongados e sua largura diminuída, porém esta fase durou cerca de 7 anos e logo após a este curto período seus formatos voltaram a ter formas arredondadas com larguras mais amplas.

Os saltos destes calçados masculinos permaneceram com altura entre 2 e 3 cm e geralmente eram confeccionados em couros por meio de empilhamento, tendo seus formatos grandes semelhanças com os tradicionais saltos de sapatos masculinos como os conhecemos hoje.

Os modelos mais utilizados eram: Side-Gore tendo sua maior utilização no período noturno em ocasiões não tão formais. Já para eventos noturnos de maior formalidade o modelo Oxford era o mais indicado, muitas das vezes com laços de fitas em maior volume, sendo este mais glamoroso do que o modelo fechado por botões. Ainda em algumas ocasiões noturnas podiam ser notadas as utilização dos Pumps (um modelo originário dos meados do século XVI, que muitos atribuem como sendo os pré-cursores dos Scarpins, que em momentos foram utilizados sem saltos e posteriormente com saltos), em couros macios. Os modelos Derby acabaram por perderem as biqueiras e nos Estados Unidos foram rebatizados de Gibson, já na Europa foram mais conhecidos como Napolitano.

Outro acessório muito utilizado no final do século XIX e início do século XX, que impunha formalidade foi uma variação do Gaiter, agora chamado de Spats (espécie de canos sobressalentes, só que mais curto, que cobre parte dos calçados até pouco acima do tornozelo, sendo fechado geralmente por três botões e com uma cinta que as prende sob o solado do calçado, nesta versão geralmente confeccionada em couro).

Em relação aos calçados femininos, os Oxfords de modelagem mais ampla alcançavam os tornozelos e possuíam fechamentos laterais por três botões. Os Derbys recém batizados de Gibsons diferenciaram-se dos modelos masculinos, por terem também uma modelagem mais ampla cobrindo os pés até os tornozelos. O modelo Cromwells, ou Coloniais, com suas linguetas amplas e suas vistosas fivelas, também fizeram-se presentes entre os anos de 1885 e 1900, modelos estes muito utilizados pelos puritanos do século XVII.

Os saltos alcançaram alturas consideráveis até mesmo nos dias de hoje, uma vez que podem ser encontrados relados de calçados com saltos de até 6 polegadas, ou pouco mais de 15 cm, sendo que eram comumente encontrados saltos em torno de 7 a 8 cm. Essas alturas foram possíveis devido ao emprego da borracha, não só nos solados, mas também nos saltos, embora a já houvesse o emprego da borracha em solados desde 1837. Isso só foi possível por que o inventor norte-americano Wait Webster, patenteou em New York o processo de “aplicar sola de borracha índia em sapatos e botas”, sendo que na seqüência Charles Goodyear em 1839 nos Estados Unidos, com intuito de melhorar a qualidade dos pneus que sua empresa fabricava, descobriu a fórmula de preservação da borracha. Esta fórmula deu origem à vulcanização, que consiste geralmente na aplicação de calor e pressão há uma composição de borracha, a fim de dar forma e propriedades ao produto final. Sem dúvida é a fase mais importante da indústria da borracha.

Nas décadas de 1880 e 1890, o emprego da borracha foi amplamente utilizado tornando-se comuns a muitos sapatos trazendo leveza, maciez e possibilitando novas estruturas de solados e saltos.

Há também relatos da possível utilização de filamentos metálicos que seriam fixados sob os solados do calçados, na região do arco dos pés, isso anos a frente daria origem às almas de aço. A isso foi atribuído maior durabilidade e estabilidade a muitos calçados.

As cores que no início do século eram bastante sóbrias, assim permaneceram por muitos anos, porém nas últimas décadas esta sobriedade deu lugar a cores mais vibrantes como o amarelo e vermelho, além do marfim e branco.

Uma maior variedade de materiais pôde ser empregada na confecção dos calçados do final do século XIX, como os tradicionais couros de flor, muito utilizados nos invernos e nos verões as camurças, lonas, suedes e cetins.

As botas neste período tiveram grandes destaques, tanto as masculinas quanto as femininas, este destaque deveu-se aos intensos conflitos originados por guerras, revoluções e perturbações sociais decorrentes desde o início do século.

Entre as botas masculinas destacavam-se as botas de cano curto ou botinas conhecidas como: Coburg e Oxonian.

Já entre as botas femininas, os modelos mais encontrados eram as: Barrette, Balmoral e as Openwork, estas botas em muito utilizadas nas caminhadas e muitas delas eram confeccionadas em tecidos como lona, cetim e camurças, e claro as tradicionais em couro e camurça.

Um grande avanço da moda prêt-à-porter dos calçados foi à padronização ocorrida por volta de 1885, onde os calçados passaram a seguir padrões em seus tamanhos, tanto na Inglaterra, quanto nos Estados Unidos, ainda na década de 1880, outras medidas foram incorporadas como os meios números e variações de medidas também nas larguras, o que proporcionaram calçados com melhores ajustes, sem a necessidade da produção sob encomenda.

Com o crescente interesse pelos esportes, os calçados esportivos voltaram a ter as atenções voltadas a eles, sendo que em 1876 foi fundada por Albert Spalding, a indústria Spalding, que teria sido a primeira empresa especializada em materiais esportivos da história, que iniciou a produção de um calçado destinado aos atletas confeccionados com solados e cabedais em couro macio, fixado aos pés por atacadores (cadarços), sendo que nos solados havia uma estrutura onde eram fixadas tachas para uma melhor tração. A empresa tinha sede em Springfield, Massachusetts – Estados Unidos. A empresa foi conhecida por desenvolver o primeiro bastão de baseball, com o formato que conhecemos hoje e já em 1892, Wright & Spalding adquiriu as Ditson & AJ Reach, ambas empresas rivais de produtos de produtos esportivos. Hoje a empresa é muito conhecida pelos produtos voltados ao basquete, onde fornece a bola da NBA, desde 1983, porém a empresa produz materiais para a prática de diversos esportes como: Futebol americano, softball, baseball, vôlei, futebol, esqui, golfe entre outros. A empresa foi também uma das primeiras a contratar atletas de alto rendimento para endossar seus produtos, com o contrato de patrocínio ao tenista Ricardo Alonso González, também conhecido como Pancho Gonzales (tenista americano número 1 do mundo por inigualáveis oito anos na década de 1950 e 1960).

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Nov 12

Numeração dos Calçados

Da necessidade prover proteção aos pés do homem para que estes pudessem se locomover sobre terrenos ásperos e em condições climáticas desfavoráveis surgem os calçados. Embora alguns historiadores datem os primeiros calçados entre 3.000 A.C. e 2.000 A.C. no Antigo Egito (Civilização da Antiguidade Oriental do Norte de África, concentrada ao longo do curso inferior do rio Nilo, o que é hoje o país moderno do Egito, tendo sido uma das primeiras grandes civilizações da Antiguidade.), mas resquícios históricos encontram evidências no Período Paleolítico, também conhecido como Idade da Pedra Lascada, período este da pré-história que aconteceu cerca de 2,5 milhões A.C., quando os antepassados do homem começaram a produzir os primeiros artefatos em pedra lascada, destacando-se de todos os outros animais, até cerca de 10.000 A.C., quando houve a chamada Revolução Neolítica, em que a agricultura passou a ser cultivada, tornando o homem não mais dependente apenas da coleta e caça, sendo que as evidências sobre os calçados datam entre 14.000 A.C. e 10.000 A.C., uma vez que pinturas rupestres encontradas na Europa em países como França e Espanha, fazem referências a utensílios utilizados para a proteção dos pés deste homem pré-histórico.

Durante milênios os calçados não seguiram qualquer padronização de tamanho ou numeração, o que nos leva a crer que até a Idade Média, período da história da Europeia entre os séculos V e XV, os calçados fossem feitos sobre medida para seu usuário.

Mas isto começou a mudar durante o reinado de Eduardo I de Inglaterra (17 de Junho de 1239 – 7 de Julho de 1307), cognominado Longshanks, foi um Rei de Inglaterra da dinastia Plantageneta entre 1272 e 1307. Era filho de Henrique III de Inglaterra, a quem sucedeu em 1272, e de Leonor da Provença. Durante o seu reinado, a Inglaterra conquistou e anexou o País de Gales e adquiriu controle sobre a Escócia. Eduardo mostrou ter uma personalidade e estilo de governo bastante diferentes do seu pai, que procurava reinar por consenso e resolvendo crises de forma diplomática.

No início do século XIV, mais precisamente no ano de 1305, O Rei Eduardo I, decretou que fosse considerada uma polegada a medida de 3 grãos secos de cevada, colocados lado a lado (não devemos nos esquecer que no Brasil utilizamos o ponto Frances e na Inglaterra, utiliza-se o ponto inglês, mas isso iremos tratar mais adiante). Este decreto visou padronizar as medidas, o que acarretou novas possibilidades negócios, pois a partir daí, com a padronização dos tamanhos passou a ser possível a confecção de calçados para vendas posteriores. Os sapateiros ingleses gostaram da ideia e passaram a fabricar pela primeira vez na Europa, sapatos em tamanho padrão, baseados no grão de cevada. Desse modo, um calçado medindo 35 grãos de cevada passou a ser conhecido como tamanho 35 e assim por diante.

Oficialmente a primeira descrição de um sistema de medidas para os calçados, foi publicada na Inglaterra no século VXII, no ano de 1688. A publicação foi feita no manual The Academy Of Armory And Blazon desta época, onde Randle Holme menciona um acordo entre sapateiros para utilizar um sistema de 1/4 de polegada (0,635 cm) como padrão. Mais de um século depois, uma nova medida foi instituída pelos fabricantes ingleses, que passaram a utilizar 1/3 de polegada (0,846 cm), o equivalente a um grão de cevada, que era justamente a medida decretada pelo Rei Eduardo I, lá no século XIV. Essa medida virou uma unidade métrica chamada “Ponto“.

Já no início do século XIX, os sapateiros parisienses utilizavam-se do “Ponto“ porém a variação entre um “Ponto“ e outro era de 1cm, sendo que eles perceberam que em muitos casos determinado número causava desconforto por ficar muito justo (apertava os pés) e o número seguinte causa desconforto por ficar muito folgado, assim a solução encontrada por eles foi a de adotar uma nova medida do “Ponto“ onde ao diminuí-lo conseguiriam uma diferença menor entre os tamanhos, também chamado de fator de progressão assim passam a utilizado por eles passado a medida de 1 cm para 2/3 de centímetro ou 0,666 cm ou 6,66mm, aos olhos de leigos essa pequena alteração fez uma grande diferença principalmente nos calçados femininos, o sucesso desta alteração logo foi percebida por diversos países da Europa Continental, sendo adotada por sua ampla maioria, além de outros países fora do Continente Europeu como por exemplo o Brasil.

Com a Revolução industrial, período que consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social. Iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX, e segundo alguns historiados, este processo estende-se até os dias atuais. Durante este período, a era agrícola foi superada, a máquina foi suplantando o trabalho humano, uma nova relação entre capital e trabalho se impôs novas relações entre nações se estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de massa, entre outros eventos. Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores, como o liberalismo econômico, a acumulação de capital e uma série de invenções, tais como o motor a vapor. O capitalismo tornou-se o sistema econômico vigente.

É neste período que entra em vigor a utilização do primeiro sistema de numeração para fábricas de calçados, criado em 1800 pelo americano Edwin B. Simpson. O sistema incluía também medidas de “Meio Ponto“, usadas até hoje nos EUA e na Inglaterra. Os fabricantes só passaram a utilizar o método em 1808, mas ele sobreviveu e dura até os dias de hoje, com pequenas variações. Outros países como o Brasil, adotaram sistemas diferentes, mas sempre baseados na ideia de ponto.

Como já mencionado o sistema brasileiro utiliza o ponto francês, com 2/3 de centímetro, que é muito próximo do padrão em toda a Europa Continental.

No Japão o padrão é mais simples, pois 1 ponto mede 1cm, tal qual o método ou tamanho original do “Ponto“ utilizado na França e outros países europeus antes do século XIX.

 

PONTOS

Existem vários PONTOS, mas abaixo estão os principais, vale lembrar, que há variações nas tabelas de equivalência de numeração entre os países.

  • Ponto Francês:

Baseia-se no centímetro;

1 Ponto Francês corresponde a 2/3 de 1 centímetro, ou seja, 0,666 cm;

Tendo como número inicial o “0” (Zero), que fixa na extremidade do calcanhar, a partir daí a numeração avança ponto a ponto não havendo distinção na numeração infantil ou adulto;

No Brasil embora o sistema de numeração utilizado seja o Ponto Francês, em decorrência do biótipo da população que via de regra possuem pés um pouco mais largo, foi adaptado uma variação no Ponto Francês, que fixa o calcanhar em “-2” (Menos Dois) ao invés do “0” (Zero). Logo subentendesse que um calçado Made in Brazil de número 35 seja o 37 Europeu.

  • Ponto Inglês:

Baseia-se na polegada;

1 Ponto Inglês corresponde a 1/3 de uma polegada, ou seja, 0,846 cm;

Tendo como número inicial o “0” (Zero), porém não necessariamente em uma das extremidades do pé. O “0” (Zero) é deslocado a 4 polegadas após o calcanhar, a partir daí a numeração avança de meio em meio ponto até o número 13 no nos calçados infantis. Já nos calçados para adultos a numeração inicia-se no número “1” e avança também de meio em meio ponto.

  • Ponto Americano:

Baseia-se na polegada;

1 Ponto Americano corresponde a 1/3 de uma polegada, ou seja, 0,846 cm;

1 Ponto Inglês corresponde a 1/3 de uma polegada, ou seja, 0,846 cm;

Tendo como número inicial o “1” (Um), porém não necessariamente em uma das extremidades do pé. O “1” (Um) é deslocado a 4 polegadas após o calcanhar, a partir daí a numeração avança de meio em meio ponto até o número 13 no nos calçados infantis. Já nos calçados para adultos a numeração inicia-se no número “1” e avança também de meio em meio ponto. Logo subentendesse que um calçado Norte Americano será sempre um número maior do que o Britânico embora o tamanho real em polegadas seja o mesmo.

  • Ponto Japonês:

Baseia-se no centímetro;

1 Ponto Japonês corresponde a 1cm.






Nov 11

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo XVI

Capítulo XVI

ROMANTISMO – O início da sistematização da moda.

 

Denominou-se Romantismo o movimento artístico, político e filosófico, que foi marcado profundas mudanças sociais nas últimas décadas do século XVIII na Europa e estendeu-se por grande parte do século XIX. Este movimento caracterizou-se pela visão do mundo, sob óptica oposta ao racionalismo que marcou o período Neoclássico e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os estados nacionais na Europa.

Inicialmente o Romantismo era apenas uma atitude, um estado de espírito, que tomaria mais tarde a forma de um movimento e o espírito romântico passou a designar toda a visão de mundo, centrado no indivíduo. Autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos de escapismo. Se o século XVIII foi marcado pela objetividade, pelo Iluminismo e pela razão, o início do século XIX foi marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu.

O termo Romântico em um sentido estreito refere-se ao movimento estético, ao elevarmos o termo a um amplo sentido, ele refere-se à tendência idealista, ou poética de alguém que carece de sentido objetivo.

O movimento encontrou origem numa Europa rebelada intelectualmente e com crescente cede de liberdade, onde o liberalismo político encontrava espaço com a queda de sistemas políticos e governamentais, onde muitos governos eram depostos, muitas vezes pelo inconformismo social, fosse ele nos campos, ou nas cidades.

O meio artístico repudiava as regras impostas até então e buscava justamente a oposição a estas regras, até mesmo alguns autores neoclássicos, já nutriam um sentimento romântico, mesmo antes de seu surgimento de fato, sendo assim chamados pré-românticos, sendo que a estes estavam Francisco Goya e Bocage.

O movimento Romântico teve inicio naquela que futuramente seria a Alemanha e na Inglaterra. Na Alemanha o Romantismo acabou por contribuir na unificação germânica com o movimento Sturm und Drang (Sturm und Drang tem a tradução: Tempestade e Ímpeto, que foi o movimento literário romântico alemão situado no período entre 1760 a 1780), o movimento Romântico manifestou-se de formas bastante variadas nas diferentes artes e marcaria sobre tudo, a literatura e a música.

O Romantismo foi dividido em 3 fases:

  • 1ª Fase – As características centrais do Romantismo viriam a ser o lirismo, o subjetivismo, o sonho de um lado, o exagero e a busca pelo exótico e pelo inóspito de outro. Também destacam-se o nacionalismo presente da coletânea de textos e documentos de caráter institucional, que remetem ao nascimento de nações fato atribuído à época medieval, a idealização do mundo da mulher e da depressão por essa mesma idealização não se materializar, assim como a fuga da realidade e o escapismo. A mulher era uma musa, ela era amada e desejada, mas não era tocada;
  • 2ª Fase – Eventualmente notado o pessimismo, certo gosto pela morte, religiosidade e naturalismo. A mulher era alcançada, mas a felicidade não era atingida;
  • 3ª Fase – Seria a fase de transição para outra corrente literária, o realismo que denuncia os vícios, os males da sociedade, mesmo que o faça de forma enfatizada e irônica, trazendo as realidades desconhecidas que revelam as fragilidades. A mulher era idealizada e acessível.

Além das 3 fases, outros vários sub-movimentos ocorreram durante o Período Romântico, muitos deles chegaram a ser reconhecidos por alguns historiados, como movimentos distintos e não sub-movimentos contidos no Romantismo, entre eles encontramos o Academicismo, talvez o mais evidente, ou importante dentre os outros.

O Academicismo, ou Academismo pode ter duas interpretações diferentes, mas que na verdade, que completam-se ao longo dos tempos e perpetuam-se até hoje, embora possam ser muito visíveis em dois momentos históricos, onde num primeiro momento a sua criação foi denotada como um método de ensino artístico, com o intuito de profissionalizar os indivíduos com dotes artísticos principalmente na área da pintura, embora tenha englobado outras áreas. Este primeiro momento deu-se na Itália ainda em meados do século XVI e acabou influenciando também várias sociedades não ocidentais, por conta da colonização européia destas sociedades. Já em um segundo momento, em uma acepção mais estrita acaba por designar a versão consolidada na Academia Real de Pintura e Escultura da França, fundada em Paris em 1648 por um grupo de pintores liderados por Charles Le Brun, que impôs uma pedagogia fortemente sistemática, hierarquizada e ortodoxa. O sucesso da proposta francesa a tornou o modelo, para a fundação de inúmeras outras escolas de arte de nível superior em vários países de grande importância para a evolução das correntes estéticas Barroca, Neoclássica e claro, a própria Romântica. Seu outro significado indica o estilo artístico nascido nos círculos das academias, ou por sua influência também denominada arte acadêmica, ou estilo acadêmico.

Para muitos, o termo arte acadêmica refere-se especialmente àquela produzida no âmbito das academias do século XIX, embora sejam termos aplicáveis com toda a propriedade a qualquer das artes, a grande maioria dos pesquisadores têm voltado suas atenções principalmente aos efeitos dos modelos acadêmicos sobre as artes visuais e dentre elas, a pintura.

A partir do fim do século XVIII, mas principalmente meados do século XIX, o sistema acadêmico tradicional, que até então, fora um dos principais promotores da vanguarda e o árbitro de toda a arte perdeu parte da conexão vital com seu contexto e começou a ser contestado vigorosamente pelas escolas do Realismo e do Impressionismo, que o acusaram de ser dogmático, conservador e contrário à expressão da individualidade, com isto levando o sistema ao declínio. No início do século XX, o antigo método acadêmico entrou em colapso com a ascensão do Modernismo, que atacou todas as formas de tradições artísticas e privilegiou a expressão livre de regras apriorísticas, a intuição e a independência criativa.

De modo geral podemos dizer que o Academismo, teve seu auge sob o Período Romântico aproximadamente entre os anos de 1830 a 1870.

Nas obras de artes deste período podem ser observadas normas clássicas estabelecidas geralmente pelas Academias de Arte, estas obras possuem grande qualidade técnica, embora sejam consideradas por muitos como uma fuga do realismo, ou um estilo degenerativo do Classicismo, uma vez que percebida a falta deste, embora uma vez por outra possa ser observado traços deste Classicismo, já que ainda existe a procura pela beleza, não a beleza ideal, mas sim a beleza real, que é à base do Academismo.

Com a queda do regime totalitário de Napoleão, ainda próximo ao fim do período anterior, trouxera a Europa um alívio e quando o Congresso de Viena reuniu-se em conferência entre embaixadores das grandes potências européias, na capital austríaca entre 2 de maio de 1814 e 9 de Junho de 1815, cuja intenção era a de redesenhar o mapa político do continente europeu, após a derrota da França Napoleônica na primavera anterior e retomar  a colonização (como visto na Revolução Liberal do Porto, no caso do Brasil), restaurando os respectivos tronos às famílias reais derrotadas pelas tropas de Napoleão Bonaparte (como a restauração dos Bourbon), além de firmar uma aliança entre os burgueses. Os termos da paz foram estabelecidos com a assinatura do Tratado de Paris (30 de Maio de 1814), no qual estabeleciam-se as indenizações a serem pagas pela França aos países vencedores. Mesmo diante do regresso do imperador Napoleão I do exílio, tendo este reassumido o poder da França em Março de 1815, as discussões prosseguiram. O Ato Final do Congresso foi assinado nove dias antes da derrota final de Napoleão, na batalha de Waterloo em 18 de Junho de 1815.

Embora os embaixadores dos países participantes do Congresso tenham chegado a um consenso e assinado o Ato Final do Congresso de Viena, na prática isso não foi bem aceito por boa parte da população européia, devido aos acontecimentos dos últimos 25 anos. Assim as três décadas seguintes serviram para reforçar uma base liberal radical, que propunha a derrubada dos sistemas monárquicos, em virtude disto, perturbações contínuas e levantes revolucionários sacudiram a Europa, como a revolução da independência da Grécia, que ao término desta pode ser considerado o fim do Período Neoclássico, isso em 1929. Levantes e revoluções continuaram assolando as colônias espanholas e francesas, além é claro de uma das revoluções mais marcantes da história enfrentada pela Inglaterra, que foi a 2ª Revolução Industrial iniciada no país por volta dos meados do século XVIII, que expandiu-se para o restante do mundo no século seguinte.

A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas, com profundo impacto no processo produtivo a nível econômico e social, sendo que ao longo do processo a era agrícola foi superada, a máquina foi suplantando o trabalho humano e uma nova relação entre capital e trabalho foi imposta, logo novas relações entre nações estabeleceram-se, surgindo assim entre outros eventos, o fenômeno da cultura de massa. Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores como:

  • Liberalismo econômico;
  • Acumulação de capital;
  • Série de invenções como o motor a vapor.

O capitalismo tornou-se o sistema econômico vigente. Em conseqüência a tantas mudanças drásticas, também acabaram por provocar muito sofrimento e muita violência, além de originar um aumento da classe média.

O grande legado deixado à moda pela Revolução Industrial, ainda no século XVIII, foram os primeiros projetos de máquinas de costuras, que foram muito aprimoradas no século XIX, tendo como ótimo exemplo o alfaiate francês Barthélemy Thimonnier, que em 1930 patenteou uma máquina de costura reta, já por volta de 1941, Barthélemy Thimonnier tinha uma fábrica com cerca de 80 máquinas que produziam uniformes para o exército francês. Outro ótimo exemplo de evoluções das máquinas de costuras foram os proporcionados pelo engenheiro americano Isaac Merritt Singer, que tornou-se sinônimo de máquina de costura, pois fez importantes melhorias no design das máquinas e fundou Singer Sewing Machine Company. Singer tornou-se o mais famoso, embora outros antes dele tenham inventado e patenteado máquinas de costuras, mas em virtude das melhorias realizadas por ele nas máquinas, elas tornaram-se mais práticas, fáceis de manusear e podiam ser adaptadas ao uso doméstico como as máquinas de pedais. Com todo o desenvolvimento proporcionado, com a produção de máquinas a todo vapor também nos Estados Unidos foi possível proporcionar o impulso que faltava á produção de vestuários e calçados.

De modo geral a moda continuou sob influências orientais trazidas pelo estilo Chinoiserire (imitação ou evocação dos estilos chineses), ainda provenientes do período anterior, com isso, os trajes masculinos adquiriram ombros mais largos e quadris acolchoados deixando a região da cintura mais justa, gerando assim, uma silhueta masculina mais marcada ao estilo ampulheta, estilo este, muito apreciado na figura feminina. A partir da década de 1840, a moda feminina acabou por tornar-se mais inibida e opressiva, onde os vestidos e saias que deram a figura feminina um ar mais acolhedor acabaram por ser substituídas pelas crinolinas (armações utilizadas sob as saias para adicionar volume, sem a necessidade do uso de inúmeras anáguas. Sua utilização marcou o momento em que surge a indústria da moda propriamente dita, sendo este o primeiro modismo que poderíamos chamar de “universal”, que foram usadas de 1852 a 1870, em lugares tão diversos quanto à Nova Zelândia). A moda masculina não obteve muitas alterações e foram mantidas as linhas mais retas, as cores escuras provenientes do período anterior mantiveram-se, salvo pequenas modificações.

Podemos dizer que no Período Romântico a moda estabeleceu-se de maneira sistemática e organizada como fenômeno cultural e social. Foram estabelecidas variações do “gosto”. Período de muita evolução que trouxe a produção artesanal de calçados novas exigências de praticidade e funcionalidade exigidas pela sociedade. Ficando caracterizados ainda, diferentes ambientes como: Cidade, campo e estrada. Desta maneira, surgem os calçados para o trabalho, para o passeio e várias novas exigências que este novo consumidor necessita.

Nos calçados masculinos, os bicos ovais, ou arredondados iniciaram dominando este período, mas acabaram suplantados pelos bicos quadrados de largura moderada, que reinaram quase que por absolutos até por volta de 1850, a partir daí estes calçados têm seus bicos alargados e passam a proporcionar maior conforto.

Os solados destes calçados que encontravam-se rasteiros, ou com saltos muito baixos desde o período Neoclássico, que os deixam em nível único mantiveram-se também até 1850, sendo após esta data mantiveram-se assim somente as botas dos trabalhadores, pois os saltos comuns aos sapatos masculinos, como os conhecemos hoje voltaram à cena tendo variações de altura entre 1 cm e 2,5 cm.

As utilizações dos calçados masculinos variaram de modelos devido aos horários de suas utilizações, onde para as caminhadas matinais os mais aceitáveis eram as botas e os Oxfords.

Para utilização à noite, os calçados com elásticos nas laterais, que hoje os conhecemos como Side-Gore (as características deste modelo é seu fechamento por meio de elástico nas laterais do calçado, não havendo assim o emprego de fivela, velcro, zíper ou cadarço, tratando-se de um calçado fechado que deixa o pé totalmente coberto), no entanto, quando a noite requeria um traje para ocasiões mais formais, o modelo requerido era o Oxford, porém os sapatos com gáspeas mais elevadas e com laços sobre estas, ainda eram admitidos.

Já no final deste período surgiu uma variação do modelo Oxford, que foi batizado de Richelieu, onde tratava-se de uma modelo similar ao Oxford, porém sem a amarração por cadarços, ou fitas, tendo a abertura próximo aos tornozelos, sendo seu fechamento efetuado por três botões.

Ao exemplo do modelo Richelieu, que surgiu no final do período, o modelo Derby, ou CapToe (modelos com biqueiras, ou seja, sobreposição de algum material na ponta da gáspea) acabou por perder as biqueiras e serem rebatizado de Gibson, também conhecido como Napolitano.

Os mules de couro ainda eram utilizados nos interiores dos lares durante todo o dia, porém muitos destes modelos agregaram fitas, ou tiras que os prendiam aos tornozelos evitando que caíssem dos pés.

As galochas tornaram-se popular entre os homens e eram confeccionadas em couro, contendo uma aba curta na parte traseira, que após o calce esta era erguida e preza por uma tira que transpassava de um lado a outro do tornozelo, sendo preza por botão.

A ampla maioria dos calçados masculinos eram encontrado em couros e nas cores escuras, porém no verão podiam ser encontrados modelos em camurça, ou lonas branca, ou bege, sendo que no final do período os tons de amarelo e marfim tornaram-se comuns aos sapatos, principalmente quando em cetins.

Os calados femininos deste período tiveram muito mais variações de modelos dos que os calçados masculinos, uma que as variações dos modelos destinados as mulheres eram mais amplos, pois havia variações de estilos, cores, saltos, formas e ocasiões.

Ao exemplo dos calçados masculinos, os bicos dos calçados variaram entre os arredondados e os quadrados, estes últimos variaram dos muito estreitos aos mais amplos e confortáveis, os modelos com bicos mais estreitos acabavam por impor certo desconforto, há inclusive relatos que muitas mulheres deixavam os pés de molho em água gelada antes de calçá-los, a fim de diminuir os volumes dos pés, para que fosse possível calçá-los, este desconforto em alguns modelos eram amenizados pela presença dos tecidos nos cabedais.

Os tecidos em destaque estavam os cetins, principalmente nas cores preta e branca.

Um fato histórico/político esteve relacionado profundamente à utilização da cor preta não só nos calçados, mas também no vestuário, isto deveu-se ao prolongado luto da Rainha Vitória (Alexandrina Vitória I do Reino Unido – Londres, 24 de maio de 1819 – East Cowes, 22 de janeiro de 1901 oriunda da Casa de Hanôver, que foi rainha do Reino Unido de 1837 até a morte, sucedendo ao tio o rei Williamm IV. A incorporação da Índia no Império Britânico em 1877 conferiu a Vitória o título de Imperatriz da Índia. O reinado de Vitória foi o mais longo, até então na história do Reino Unido e ficou conhecido como a Era Vitoriana. Este período foi marcado pela Revolução Industrial e por grandes mudanças a nível econômico, político, cultural e social), após a morte de seu esposo o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota (26 de agosto de 1819, Coburgo, Baviera – 14 de dezembro de 1861, Windsor, Berkshire foi o marido e príncipe consorte da Rainha Vitória do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e o pai do rei Eduardo VII. Ele foi o único marido de uma rainha britânica que oficialmente deteve o título de príncipe consorte. Após a morte de Vitória, em 1901, a Casa de Saxe-Coburgo-Gota, nomeada a partir do ramo dinástico da família Ducal Saxônica à qual Alberto pertencia sucedeu a Casa de Hanôver no trono britânico), o que acabou por popularizar os calçados escuros, transformando os calçados principalmente pretos como um hit de moda.

Os saltos também sofreram freqüentes mudanças de estilos, onde no início do período saíram da sua não empregabilidade, pois os calçados rasteiros do final do período anterior predominavam passaram a apresentar variações escalonadas de 1 cm e 4 cm.

Nesta época os ditos sapatos femininos assemelham-se aos nossos conhecidos Scarpins, estes modelos eram destinados a utilização juntos aos vestidos, principalmente quando encontrados na cor preta.

Os mules principalmente de tecidos continuaram a encontrar espaço nos gosto das mulheres para a utilização nos lares, só que nesta época eles acabaram por adquirirem saltos.

Sem dúvida alguma a Revolução Industrial com suas descobertas e inovações impulsionaram a produção de calçados trazendo qualidade e redução de preços, facilitando assim o acesso aos calçados da população menos favorecida.

A produção em larga escala dos calçados teve sua origem nos Estados Unidos, onde começou como uma atividade familiar e exclusiva de colonos do leste do país, mas precisamente na Nova Inglaterra. Contudo a tradição do calçado confeccionado a mão não extigüiu-se e manteve-se como um grande fenômeno europeu, especialmente em países como a Inglaterra, Itália e França, onde a criação dos calçados estavam intimamente associados a criação dos vestuários.

O patenteamento dos ilhoses de metais por Thomas Rogers em 1823 deu início a uma série de inovações que se estenderia por todo período em questão, já em 1830 pôde ser visto o emprego da borracha nos solados dos calçados, em 1837 J. Hall Sparkes patenteou a primeira bota com as laterais de elástico, em 1840 os laços de fitas e outros tecidos foram substituídos por laços de elásticos, em 1860, mas máquina de costura Blake foi apresentada, máquina esta que permitia a costura de solas junto aos cabedais, em 1874 com a invenção da máquina de colocação de ilhós, este item passou a ter uma maior utilização na produção dos calçados. Máquinas de rebites, máquinas de virar corte e outras invenções de menores importâncias, também ajudaram a compor um cenário altamente favorável à produção de calçados.

Desde o final do período Neoclássico e por todo o Período Romântico, as botas foram extremamente populares, tanto para os homens, quanto para as mulheres. A partir de 1860, muitos modelos atados por cadarços entre ilhoses, que até então, tinham denominação própria passaram a serrem chamados por muitos de botas oxfords.

As botas masculinas que até então eram bastante rústicas e com canos longos, cederam espaço às botas Wellingtons, isso por volta de 1820, botas estas que já podiam ser encontradas desde 1817, em lojas de Northampton (cidade do Condado de Hampshire em Massachusetts, Estados Unidos da América), pelo preço de uma libra e cinco xelins. As botas Wellingtons reinaram quase que absolutas entre as botas, tendo sua utilização descartada por volta de 1868, em deferência das botas de cano curto e botinas, que obtiveram muita popularidade, muitas botas Wellingtons chegaram a terem seus canos cortados, mas gradativamente foram substituídas pelo modelo Coburg ou Oxonian, que embora tenham sido criadas em 1825, só após meados do século XIX passaram ao gosto popular.

As botas femininas por volta de 1840 acabaram por aderir à utilização de elásticos nas laterais e seguiram até aproximadamente 1860, sendo produzidas em tecidos com aplicação de rendas sobres estes, que acabavam por desgastarem com facilidade, estas botas continham saltos entre 3 e 4 cm e muitas já eram dotadas carreiras de ilhoses que permitiam a amarração por fitas que acabavam em laços. A partir de 1860, outros modelos foram sendo adotados como as botas Adelaides, que na maioria das vezes eram de tecidos, mas sem a aplicação das rendas, tendo alguns modelos variações em couros e com saltos de menores alturas, em torno de 1 e 2 cm. Modelos de botas como Barrette, Balmoral e as Openwork, também fizeram-se presentes e acabaram por serem utilizadas também nos invernos acompanhadas por leggins, ou gaiters (espécie de canos sobressalentes calçados sobre os canos das botas e pernas, geralmente de couro, lona e lã, conhecido por muitos como polainas).

Com a retomada da prática esportiva no Reino Unido no final do século XVIII criou-se a necessidade por calçados mais leves, flexíveis e de melhor tração, isso obrigou o desenvolvimento então neste século XIX, de um sapato em couro fino e macio e com bicos/tachas nas solas, para proporcionar maior tração.

Neste período mais precisamente em 1846 houve um fato que merece um destaque todo especial, onde a indústria francesa, ou parisiense de moda foi fundada por Charles Frederick Worth (13 de outubro de 1825, Bourne, Lincolnshire, Inglaterra—10 de março de 1895).

Worth é considerado como “pai da alta-costura” e dos desfiles de moda com modelos, foi um costureiro e estilista inglês do século XIX, onde em sua juventude trabalhou como aprendiz na casa Swan & Edgar (comerciantes de tecidos) em Londres. Em 1846 mudou-se para Paris e após doze anos trabalhando, para atacadistas de sedas começou a trabalhar como costureiro em sociedade com um sueco chamado Dobergh. Seu talento como estilista chamou a atenção da imperatriz Eugenia, esposa de Napoleão III e através dela, toda a alta sociedade parisiense.

Após a Guerra Franco-Prussiana (A Guerra Franco-Prussiana ou Guerra Franco-Germânica 19 de Julho de 1870 – 10 de Maio de 1871 foi um conflito ocorrido entre França e Prússia. Durante o conflito, a Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte, da qual fazia parte e dos estados do Baden, Württemberg e Bavária. A vitória incontestável dos alemães marcou o último capítulo da unificação alemã sob o comando de Guilherme I da Prússia. Também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico na França, com o fim do Segundo Império e sua substituição pela Terceira República Francesa. Também como resultado da guerra ocorreu a anexação da maior parte do território da Alsácia-Lorena pela Prússia, território que ficou em união com a Alemanha até o fim da Primeira Guerra Mundial), durante a qual, Worth transformou a própria casa em hospital militar, o sócio então retirou-se e ele continuou o negócio com a ajuda dos filhos, John e Gaston, ambos naturalizados franceses. Em seu apogeu, a Maison Worth chegou a empregar 1200 pessoas e ditou os padrões da moda de toda a Europa.

A casa de alta-costura de mais prestígio em Paris, no início do século XX, era a Casa Worth (nessa época nas mãos do filho do fundador, Jean-Phillipe e Gaston). A Worth vestia uma elite rica, que incluía a realeza européia, herdeiras americanas e atrizes famosas. Suas criações do início da década eram ostensivamente caras e às vezes tinham uma exuberância quase vulgar, que as anunciava como modelos da Worth e as identificavam como mulheres associadas à riqueza e ao poder. Com filial em Londres, onde o poder de compra era consideravelmente alto.

Trilhando o caminho de Worth, outros estilistas sugiram, como Paquin, Chernit e Doucent, tornando assim Paris a capital da moda. Alguns estilistas que trabalharam para estes mestres, com o passar do tempo foram ganhando independência e destaque, podendo ser citado Pinet, que chegou em Paris em 1855, para trabalhar para Worth e acabou criando o salto que leva seu nome, o salto Pinet, que é mais fino e mais reto que o popular salto Louis XV. Outro estilista importante desta época foi Pietro Yanturni que se auto-denominava “O mais caro estilista de calçados do mundo”, com uma clientela exclusiva de apenas 20 clientes, sendo que atualmente seus calçados encontram-se expostos no Metropolitan Museum of Art de New York. André Perugia também seguiu os passo s Pietro Yanturni, sendo que seus calçados estão expostos no Musee de la Chaussure em Romans ne Françe.






Nov 10

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo XV

Capítulo XV

NEOCLASSICISMO – A retomada da elegância.

 

O período Neoclássico foi um movimento cultural, também conhecido como Neoclassicismo, que teve seu início no final do século XVIII, por volta de 1775, com o término do período Rococó, tendo estendido-se até a terceira década do século XIX, por volta de 1830, este período marcou a retomada da cultura clássica por ampla parte da Europa Ocidental. Embora o período Renascentista, já houvesse feito essa retomada, o período Neoclássico propunha a discussão dos valores clássicos, em contraposição ao classicismo renascentista, que apenas replicava os princípios antigos sem críticas aprofundadas. A idealização da beleza eterna e inabalável não era mais aceita, para os neoclassicistas as diretrizes deste novo período deveriam adaptar-se as realidades contemporâneas, que batiam a porta distanciando-as dos princípios modernos.

Em meados do século XVIII escavações realizadas em sítios arqueológicos trouxeram as descobertas de Pompeu, Herculano e Atenas, estas descobertas acabaram por influenciar o meio artístico/cultural dando impulso necessário, para o início deste novo período. Logo o Neoclassicismo resgatou a valorização artística Greco/Romano, onde os heróis gregos e a simplicidade da arte eram alguns aspectos extremamente admirados dessas civilizações. A valorização do passado que o movimento propôs foi uma de suas principais características, que levam a uma boa parte dos críticos a crerem que o Neoclassicismo possa ser visto como uma face do Romantismo.

O Neoclassicismo é considerado um movimento antagônico aos exageros do Rococó trazendo em voga a razão, a ordem, a clareza, a nobreza e a pureza, atributos que acreditavam serem inerentes às culturas gregas e romanas. A valorização desses aspectos parece ainda estar intimamente relacionada à época histórica do movimento, chamado Iluminismo ou ”Era da Razão”. Roma era considerada um dos principais centros do movimento. A expressão destes valores próprios trazia consigo, uma nova e fortalecida burguesia, que assumiu a direção da sociedade européia após a Revolução Francesa (conjunto de acontecimentos entre 5 de maio de 1789 e 9 de novembro de 1799, que alteraram o quadro político e social da França, tendo começado com a convocação dos Estados Gerais e a Queda da Bastilha e encerrou-se com o golpe de estado do 18 Brumário de Napoleão Bonaparte) e principalmente com o Império de Napoleão (iniciado em 1799, com um golpe militar, Napoleão Bonaparte tomou o poder na França, na seqüência tornou-se primeiro-cônsul, em 1802 foi proclamado cônsul vitalício e dois anos depois imperador. Nos quinze anos em que permaneceu no poder, Napoleão construiu um dos maiores mitos da história).

As principais características do Neoclassicismo foram:
• Retomada ao passado, pela imitação dos modelos antigos greco-latinos;
• Academicismo nos temas e nas técnicas, isto é, submissão aos modelos e às regras de ensinamentos das escolas e das academias de belas-artes;
• Arte entendida como imitação da natureza, num verdadeiro culto à teoria de Aristóteles.

Na literatura os textos empregavam linguagem clara, sintética, gramaticalmente correta e nobre, diferenciando-se um pouco do rigor do Classicismo anterior, tendo como principal expressão do movimento na literatura do Arcadismo, manifestado na Itália, em Portugal e no Brasil.

No segmento das artes plásticas, o Neoclassicismo buscou inspirações no equilíbrio e na simplicidade, base das criações na Antiguidade, tendo como características marcantes o caráter ilustrativo e literário, marcados pelo formalismo e pela linearidade, poses escultóricas, com anatomia correta e exatidão nos contornos, temas “dignos” e clareza.

A música neoclássica trouxe uma simplicidade através da mudança de estilo contrapontístico, para outro homofônico, tendo como auge deste estilo os compositores Mozart e Haydn, pelo modo como sintetizaram os trabalhos de seus antecessores, dando forma definida à Sonata, à música de câmara, ao concerto e à Sinfonia. Beethoven é considerado o compositor responsável pela transição do estilo clássico para o romântico.

No Novo Mundo, mais precisamente na América do Norte, outro fato político de proporções mundiais marcaria o período do Neoclassicismo, onde ideais iluministas trazidos da Europa, fomentaram ideais de liberdade, autonomia e independência. Ser livre para as colônias inglesas (americanas) significava antes de tudo, uma ruptura política com as tradicionais metrópoles européias, sendo que a primeira manifestação que obteve êxito no liberalismo nas Américas deu-se com a Revolução Americana, que culminou em 1776 (denomina-se Revolução Americana o movimento liberalista organizado pelas 13 colônias inglesas da América do Norte, a fim de obterem a independência da Inglaterra, dando origem aos Estados Unidos da América).

Este período foi sem dúvida um período de grande transição cultural e política, não sendo diferente em relação à moda, um bom exemplo é o fato de que antes da Revolução Francesa, as mulheres ainda utilizavam espartilhos, enchimentos, além de várias camadas de tecidos e já ao final da Revolução, elas já utilizavam vestidos chemises simples e de tecidos suaves. No vestuário masculino as variações foram dos breeches e hoses às calças compridas. Estas mudanças acabaram por distanciar os trajes de uma aristocracia e aproximando-os da classe média.

Entre os calçados masculinos, os sapatos tiveram um amplo reinado, onde as fivelas que até momentos antes da Revolução Francesa eram os principais ornamentos dos calçados, foram substituídas pelos laços, que além de servirem para atacar os calçados aos pés eram também peças ornamentais. Nos Estados Unidos pode ser observado que as fivelas tiveram seus ciclos ampliados e tiveram suas substituições pelos laços, mais tardiamente se comparado à Europa.

Neste período pôde ser observado que existiram vários modelos de bicos de calçados sendo utilizados ao mesmo tempo diferentemente de períodos anteriores, que sempre houve um único modelo predominante em voga. Um bom exemplo foi por volta de 1790, onde utilizava-se modelos com bicos mais afunilados e bicos mais arredondados, próximos a ovais, nas próximas décadas este último modelo seria a principais tendência.

Foi também por esta época, por volta de 1789, que os saltos praticamente desapareceram dos calçados masculinos franceses, pelo menos os modelos de saltos até então conhecidos e utilizados nos calçados masculinos, os homens alegavam que para a utilização das novas calças, havia a necessidade de um novo salto, mais amplo e baixo, com alturas que variavam entre 1 cm e 2,5cm, foi a partir desta necessidade que criou-se o salto que permanece até hoje, como padrão para os calçados masculinos.

Os sapatos de renda tornaram-se populares e com a utilização de laços, os modelos sofreram adaptação em seus cabedais, que acabaram por deixá-los mais baixos, não apenas em relação aos saltos, mas também seus cabedais, onde as gáspeas ficaram mais curtas, estes calçados eram geralmente na cor preta e utilizavam-se de fivelas em alguns casos, até cerca de 1800.

Após esta data novas adaptações foram feitas nos calçados, que os deixaram com ajustes mais precisos em relação ao calce, quando na década de 1820 surgiram os ilhoses trazendo assim uma nova adaptação aos calçados da época surgindo então, o modelo Oxford como o conhecemos hoje, embora o modelo Oxford original, já existisse desde o século XVII.

Não podemos deixar de lembrar o surgimento de um novo modelo de calçados masculinos que no século XX, que passaria a ser sinônimo de calçados femininos,o clássico modelo D’Orsay, um sapato que tem como principais características: A gáspea e traseiro independente, ou seja, não existe o talão (partes laterais que ligam a gáspea ao traseiro), hoje há variações do modelo com o bico aberto e fechado, e ainda podem ser encontrados modelos com uma das laterais fechadas, sejam elas na lateral interna ou externa do pé, este clássico modelo foi criado por Gabriel D’Orsay, que era a alma da alta sociedade de Paris em Londres.

As meias de seda branca, ainda eram elementos obrigatórios para um traje elegante, mas novas cores como o cinza, o marrom e o preto foram sendo introduzidas gradualmente, neste momento já havia a utilização de meias de lã e algodão para cada dia e ocasião.

Em relação aos calçados femininos, os saltos desta época ainda apresentavam-se frágeis como os dos períodos anteriores, porém a partir de 1780, os saltos tornaram-se um pouco mais práticos e resistentes, sendo confeccionados por empilhamento de couros mais resistentes, havendo então a possibilidade de novos modelos de saltos como os de cunha, arqueados, estacas, além de um salto fino parecido com o stiletto, salvo as devidas proporções, modelo esta que era proveniente da Itália desde o período anterior, que ainda pôde ser visto no atual período.

Houve uma série de modelos de calçados que foram utilizados, com tendências de curtíssima duração como as que puderam ser observadas por volta de 1786 e 1787, como as dos calçados pontiagudos com as pontas dos bicos ligeiramente levantadas. Este fato provavelmente deveu-se à atenção dispensada pelos ingleses ao estilo Chinoiserire (imitação, ou evocação dos estilos chineses na arte e na arquitetura ocidental, este termo é aplicado particularmente à arte do século XVIII, quando desenhos pseudochineses de inspiração fantástica e extravagante combinavam bem com o alegre estilo da época).

As fivelas ao exemplo do período anterior, ainda são os meios de fechamento mais utilizados no calçados femininos, estas fivelas eram geralmente de prata.

As sandálias começam ter sua utilização no período por volta de 1790, no entanto, estas sandálias tinham sob seus recortes tradicionais uma espécie de segunda pele de seda, geralmente bordada com o intuito de não deixar os pés nus à mostra, sendo que por volta de 1813, as sandálias gregas ressurgem, deixando daí sim os pés amostra.

Os sapatos com gáspeas baixas, ou decotados tinham a gáspeas cruzadas por fitas e atadas aos tornozelos, os modelos mais simples destes sapatos chegaram a ser confeccionados pelas próprias mulheres que os utilizariam, sendo que para as mais ricas, isso tornara-se um hobby.

Havendo a necessidade de proteção para os calçados em ambiente externo, ainda podia-se ver a utilização das galochas, ainda na década de 1790, estas galochas seguiam os padrões das sandálias e sapatos, que tinham fitas transpassadas sobre o peito o pé, laços e atadas aos tornozelos por meio de ganchos.

Sapatos sem saltos, ou em único plano também, foram utilizados por volta de 1808, até mesmo as pattens foram abandonadas devido aos cunhos utilizados, tudo isso em troca de um calçado de plano único, ou seja, sem a elevação desproporcional do calcanhar.

Não podemos deixar de citar os macios e frágeis chinelos, muito utilizados pelas mulheres no início do século XIX.
Para enfrentar os rigorosos invernos europeus, embora houvesse uma predominância dos couros nos calçados, também foram utilizados veludos e como forros, peles de animais.

Sem dúvida alguma, a mulher considerada como mais elegante no início do século XIX foi a Imperatriz Josefine (esposa de Napoleão), que teve seus calçados feitos especialmente para compor o visual com cada vestido de seu closet.
A transição do período Rococó para o Neoclássico mudou profundamente o padrão têxtil da época, onde padrões de grandes elaborações deram espaço para padrões bem mais modestos, com pequenas flores e listra.

As maiores relevâncias em relação aos calçados ficaram a cargo das inovações e invenções, como por exemplo: A primeira patente concedida Thomas Saint, um inglês supostamente inventor da máquina de costura, tendo este 1791 patenteado o primeiro projeto de uma máquina de costura própria para a costura do couro e lona, embora não se tenha conhecimento da real produção desta máquina. Esta inovação também coincidiu com a mania do alto brilho e receitas secretas circularam por toda Europa, como a suposta receita criada Beau Brummel e utilizada por seu criado, para limpar suas botas, uma mistura de champagne com clara de ovo, que as deixava enegrecidas e brilhantes (Beau Brummel nasceu como George Bryan Brummel em 07 de junho de 1778 – 30 de março 1840 foi quem ditou a moda masculina, sob regência do amigo e Príncipe Regente, o futuro Rei George IV. Estabelecendo um modo de vestimento suave dos homens, com roupas sob medida, incluindo ternos escuros e calça longa-metragem e ainda a utilização de um lenço atado ao pescoço).

A América do Norte ainda não tinha atingido os padrões de inovações e tecnologias da Europa, todavia, a produção de calçados de couro com padrões europeus só se tornaria possível por volta de 1822, um bom exemplo disto foi que os saltos altos acabaram sendo importados dos bordéis de Paris, onde já faziam sucesso em toda a Europa, tanto que os freqüentadores dos bordeis preferiam contratar os serviços de prostitutas que utilizam os saltos.

Os couros para a produção de calçados masculinos tornaram-se mais leves e macios, a partir da década de 1780, de um modo geral, os calçados ficaram mais leves e confortáveis não só em suas construções com os solados de couros, mas também na sua aparência, onde houve a adoção das cores branca, amarela e vermelha.

Outros pontos a serem destacados foram o abandono dos saltos que ocorreram próximo ao final deste período e também a re-introdução da diferenciação entre os pés direitos e esquerdos, que pela exclusão dos saltos facilitaram a produção de calçados diferenciados para cada um dos pés, a adoção desta novidade, que na verdade ao longo da história do calçado mostrou-se não ser novidade, foi absorvida primeira e lentamente pelas mulheres e na seqüência pelos homens, mas também de forma bem gradual.

Com o desenvolvimento do pantógrafo no final do século XVIII, a iniciativa da produção de pés distintos, para os calçados seguiu firme, mesmo que lentamente, (o pantógrafo é um aparelho utilizado para fazer transferência de figuras, que pode ser regulado de modo, a executar também ampliações e reduções nas proporções desejadas, embora o pantógrafo tenha sido inventado em 1603, pelo astrônomo e jesuíta alemão Christoph Scheiner).

Atribui-se ao sapateiro William Young da Filadélfia – Estados Unidos em 1800 a produção dos primeiros pares de calçados com diferenciação entre os pés, no entanto, anterior ao ano de 1800 na Europa, já podiam ser encontrados calçados com esta diferenciação, logo pode ser atribuído a William, no máximo a produção destes calçados nas Américas.

Foi neste período que pode ser observado pela primeira vez a utilização de biqueira metálica, nas botas dos dândis (homens de bom gosto e fantástico senso estético, mas que não necessariamente pertenciam à nobreza. O dândi é o cavalheiro perfeito, é um homem que escolhe viver a vida de maneira leviana e superficial. Como uma máscara, ou um símbolo, é uma subespécie de intelectual que não abre mão do esteticismo e a beleza dos pormenores. É um pensador, contudo diletante, ocupando o seu tempo com lazer, atividades lúdicas e ociosas. Tem uma obsessão pela classe e é um dissidente do vulgar).

Os calçados femininos eram produzidos na sua maioria de couros novos, macios e leves, ao invés dos tecidos.
Entre as décadas de 1770 e 1780, as botas foram utilizadas no dia-a-dia e foram muito comuns nas caminhadas matinais, mas evitadas ao máximo em ocasiões formais, vale ressaltar que o período foi marcado por revoluções, logo houve dois estilos bem distintos de botas, as botas militares e as botas da moda, dentre as botas da moda destacaram-se os modelos Hessiana e Wellington, que puderam ser encontradas durante todo o Período.


Fev 23

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo XIV

Capítulo XIV

ROCOCÓ – Os excessos também atingiram os calçados.

 

Há exemplos de outros períodos, o Período Rococó originou-se na Europa, mais precisamente na França entre os anos de 1715 e 1775 entre os períodos Barroco e Romântico, sendo também um movimento artístico, porém descrito por alguns como uma forma profana do movimento Barroco, uma vez que teve inspirações intimas deste período, porém com o distanciamento da temática religiosa. O distanciamento de temas religiosos acabou por consentir uma lacuna que veio a ser preenchida pela arquitetura.

O período Rococó é basicamente, ou literalmente o Período Barroco elevado ao extremo, ou ao exagero.

O termo “Rococó” tem sua origem da palavra francesa “Rocaille”, que significa “concha”, isto deve-se as associações de técnicas decorativas e ornamentais de incrustações de conchas e vidros utilizados como revestimentos de grutas artificiais, técnicas dúbias e consideradas muitas vezes de gosto duvidoso.

“Época das Luzes”, talvez seja a expressão mais associada ao século XVIII e conseqüentemente ao Rococó, período este de relativa paz na Europa, depois de tantos períodos conturbados, o final deste período seria marcado pela Revolução Americana em 1776 e pela Revolução francesa em 1789.

Em meio à aristocracia européia envolvida ao Rococó, a ourivesaria (arte de trabalhar com metais preciosos, principalmente ouro e prata, na fabricação de jóias e ornamentos) no mobiliário, na pintura, ou na decoração dos interiores dos hotéis parisienses encontrava-se os elementos que caracterizam o Rococó, como as linhas curvas, delicadas e fluídas, as cores suaves, o caráter lúdico e mundano dos retratos e das festas galantes, em que os pintores representaram os costumes e as atitudes de uma sociedade em busca da felicidade, da alegria de viver, dos prazeres sensuais.

O Rococó é também conhecido como o “estilo da luz” devido aos seus edifícios com amplas aberturas e sua relação com o século XVIII.

Algumas características marcantes Período Rococó foram:

  • Cores claras, dourados e tons pastéis, além de texturas suaves;
  • Representação da vida profana da aristocracia e alegorias;
  • Estilo decorativo, leveza estrutural das construções e unificação do espaço interno, com maior graça e intimidade.

O início o Período Rococó na França tem como marco a morte de Louis XIV e a ascensão ao trono com apenas 5 anos, seu sucessor Louis XV (Louis XV de Bourbon, o “Bem-Amado”, nascido em Versalhes, 15 de Fevereiro de 1710 – idem, 10 de Maio de 1774, foi rei da França entre os anos de 1715 e 1774, filho de Louis, duque da Bretanha e bisneto de Luís XIV). O reinado de Louis XV foi um reinado bem mais flexível, sem a rigidez imposta por seu antecessor, sendo que por volta de 1730 a elegância feminina já era estabelecida pelos preceitos do Rococó.

Já na Inglaterra o marco do Período Rococó foi a mudança da família real da Casa Stuart (é uma família nobre, de origem bretã, com origem no século XI, que deteve o trono da Escócia e depois a coroa de Inglaterra, ambas até 1714), para a Casa Hanôver (é família nobre européia, de origem germânica, que substituiu a Casa de Stuart na coroa britânica em 1714, em virtude da rainha Ana I Stuart não ter descendentes), com a coroação do George I (28 de maio 1660 – 11 de junho 1727, que foi príncipe de Hanôver de 23 de janeiro de 1698, até sua morte e rei da Grã-Bretanha e da Irlanda desde 1 de agosto de 1714 até sua morte).

Enquanto isso na América a rivalidade entre Inglaterra, França e Espanha tem seu auge, devido à grande competitividade na exploração dos recursos na colônia, sendo que a rivalidade entre Inglaterra e França obteve o clímax durante a guerra denominada Guerra Franco-Indígena (é o nome dado ao conflito ocorrido entre 1754 e 1763, entre os britânicos e os franceses, na suas colônias na América do Norte, sendo que ambos os lados possuíam tribos, ou povos nativos americanos como aliados. Os algonquinos e os hurões aliaram-se aos franceses, enquanto os iroqueses se aliaram com os britânicos), por conseqüência das sucessivas vitórias britânicas, os franceses acabaram por perder suas exportações para a América do Norte.

Ao contrário da moda no período anterior, que por conta a rigidez e austeridade imposta pelo reinado de Louis XIV, que influenciou a moda durante seu período de governo, a moda Rococó foi contagiada fortemente pelo mobiliário e pela arquitetura, dando as silhuetas um contorno com menor volume, onde a figura humana adquiriu um ar mais natural com linhas mais soltas. É neste período as perucas tanto dos homens, quanto das mulheres adquirem uma coloração totalmente esbranquiçada que acabam por iluminar toda a figura.

Neste período pôde ser observado que os ciclos da moda começaram a encurtar, onde por volta de 1720, os bicos dos calçados eram arredondados de tal forma que deixavam bem evidentes os dedos dos pés, sendo que estes bicos chegaram por volta de 1740, com formatos mais pontiagudos e levemente elevados, que logo na seqüência perderam esta elevação e já no final deste período, por volta 1770, os bicos dos calçados retomam o formato mais arredondado deixando evidentes os contornos dos dedos dos pés.

Na questão dos saltos, eles permaneceram sendo utilizados tanto nos calçados masculinos, quanto os calçados femininos, porém perdem um pouco de sua elevação, ficando com elevações em torno de 2,5 e 3 cm.

A principal ornamentação foi também o sistema de fechamento predominante na época, as fivelas, estas fivelas durante o período também tiveram seus ciclos, onde foram ganharam tamanhos até por volta de 1730, logo após começaram a terem seus tamanhos diminuídos e novamente voltam a ganhar volume por volta de 1760, a estas fivelas foram empregadas algumas variações de formato e os mais diversificados e rebuscados, além do emprego de materiais nobres, como ouro e prata e pedras preciosas, tornando-as objetos de valores bem consideráveis, sendo que estas fivelas ocuparam diferentes regiões no calçado, em momentos mais à frente próximos aos bicos, em outras ocasiões bem mais elevadas ao dorso do pé, além de algumas poucas variações nas laterais dos dorsos na parte externa do pé.

Os mules continuaram sendo modelos bastantes populares, principalmente entre os homens, no entanto, há relatos da utilização deste modelo por mulheres, mas na privacidade de seus lares. Inicialmente estes mules eram confeccionados em tecidos nobres como brocados e sedas, além de serem adornados com bordados elaborados, metais nobres e pedras preciosas, suas modelagens apresentavam gáspeas menores, ou mais decotadas dos que os modelos do período passado, essa modelagem seguiu assim até por volta de 1730. Porém as ruas cada vez mais enlameadas dos grandes centros europeus tornavam a utilização dos mules de tecidos cada vez mais difíceis, logo optou-se pela confecção do modelo em couros leves e macios, sendo que no final deste período a modelagem dos mules sofreram nova alteração, deixando-os mais decotados ainda e adquirindo tiras sobre o dorso dos pés.

Os calçados femininos do início do período até por volta de 1760, tinham seus bicos alongados e ligeiramente curvados para cima chegando ao final deste período já sem essa curvatura, porém permanecendo com formato alongado, ou afunilado, onde já constavam lingüetas inteiriças desde os bicos.

Os saltos dos calçados do início deste período continham altura e robustez considerável, porém já por volta de 1760 havia a predominância dos saltos Louis XV, saltos estes, com suas bases amplas e afuniladas, tendo um estrangulamento em seu meio, porém já no final do período, os saltos ainda modelo Louis XV perderam robustez e tornaram-se mais finos e altos, se não bastasse acabaram tendo um deslocamento para trás, o que ocasionou na perda da estabilidade, pois acabou por gerar uma perda de rigidez sob o arco do pé, já que não existiam as almas de aço (almas de aço são filamentos metálicos, como o próprio nome já diz de aço, que são conformados a fim de obter a curvatura da fôrma, para serem fixadas nos saltos e palmilhas de montagem por meio de parafusos e rebites estendendo-se até a planta solar dos calçados), este fato exigiu dos sapateiros da época, uma solução que compensasse esta falta de rigidez e equilíbrio, logo acabou por alongar e dar mais robustez à bandeja do salto, muitos acabaram descrevendo como uma cunha sobre o salto o que é um erro de relato.

As fivelas também foram os destaques em relação à ornamentação dos calçados femininos, fivelas estas que muitas vezes adquiriram status de jóias requintadas, uma vez que eram empregados metais nobres como prata e ouro, além de serem cravejadas com diamantes, brilhantes e outras pedras preciosas.

Outros ornamentos de menor valor, mas não de menor beleza como bordados com fios de ouro, florais, rendas de bilro e laços de cetim e seda, muitas vezes atados com peças metálicas e pedrarias ao centro.

O material mais utilizado na confecção dos calçados foram às sedas, para os calçados mais finos e delicados, além dos brocados, muitos destes tecidos eram remanescências dos vestidos, além da modesta utilização dos veludos, principalmente utilizados em calçados para a dança.

Durante o Período Barroco, as tradicionais festas de casamento eram tão grandes quanto à família da noiva pudesse proporcionar, assim como os vestidos brancos das noivas, no entanto os calçados não proporcionavam essa combinação, pois seguiam a moda do período, pois eram comuns os sapatos de brocados bordados em sintonia com a moda local.

A utilização das galochas ainda era algo comum, porém já não visto com tão bons olhos, no entanto elas sofreram modificações para que pudessem acomodar os pés calçados com os calçados da época, que continham um salto considerável. Também a utilização dos desgastadas pattens ainda eram toleradas, só que neste momento, mais pelas classes menos favorecidas.

As cores predominantes do calçados masculinos ainda eram as cores escuras, principalmente o preto, porém ainda podiam ser encontrados alguns saltos na cor vermelha, saltos estes utilizados pelo pertencentes as cortes, prática esta que permaneceu até por volta de 1760.

A vasta utilização dos tecidos para a confecção dos calçados foram bem mais amplas nos calçados femininos que utilizaram-se de muita seda, seda esta que não foi muito vista nos calçados masculinos, devido à rapidez de desgaste, sendo que para os calçados masculinos houve maior utilização dos brocados e posteriormente couros leves e finos, que acabaram introduzindo maiores variações de colorações, enquanto isso os calçados femininos utilizavam-se além das sedas, os brocados, as lãs muito comum nos invernos e bem menos dos veludos, raramente encontravam-se calçados de couro, ou camurça nos closets femininos, porém a maioria dos calçados de tecidos eram forrados de pelica branca (pelica é couro bovino devidamente curtido e bastante fino e muito macio, couro muito utilizado nos dias de hoje para produzir calçados finos e com alto valor agregado).

As botas masculinas ainda eram destinadas a equitação e aos militares, sendo praticamente sempre confeccionadas nas cores preta, ou marrom, alguns pequenos detalhes em branco eram admitidos no topo do cano, para combinar com as camisas da época. Havia um crescente interesse pelas corridas de cavalos e a prática deste esporte difundia-se e por conseqüência, as botas também passaram a fazer parte dos uniformes dos Jockeys.

A utilização de botas femininas não era uma prática muito constante, mas podiam ser encontradas belíssimas botas em seda ou brocado, com a parte frontal do cano mais alta do que a parte traseira deste, sendo que os bicos destas botas acompanhavam o formato dos bicos dos sapatos femininos, que eram mais afunilados e dispunham de saltos tais como os sapatos, mas na maioria das vezes um pouco mais baixo, os formatos dos bicos não acompanhavam os formatos dos bicos da botas masculinas, que quase na totalidade eram amplos e arredondados.


Dez 14

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo XIII

Capítulo XIII

BARROCO – Os novos conceitos também chegam aos calçados.

O Período Barroco ao exemplo do Período Renascentista teve um destaque especial dentro da Idade Moderna, o Barroco foi um período que obteve destaque filosófico e estilístico, talvez muito mais pelo estilo do que por sua filosofia. Sua ocorrência é considerada entre meados do século XVI e meados do século XVIII, este período foi inspirado pelo fervor religioso que teve surgimento na Itália, por volta de 1600, como resultados da tentativa da Igreja em renovar a fé católica, utilizando-se das artes como forma de divulgação dessa renovação da fé, logo originou a Contra-Reforma (também denominada Reforma Católica é o movimento criado pela Igreja Católica em resposta à Reforma Protestante iniciada com Lutero, a partir de 1517. Em 1543, a Igreja Católica Romana convocou o Concílio de Trento estabelecendo entre outras medidas, a retomada do Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição, a criação do “Index Librorum Prohibitorum”, com uma relação de livros proibidos pela igreja e o incentivo à catequese dos povos do Novo Mundo, com a criação de novas ordens religiosas dedicadas a essa empreitada incluindo aí a criação da Companhia de Jesus. Outras medidas incluíram a reafirmação da autoridade papal, a manutenção do celibato, a criação do catecismo e seminários e a proibição das indulgências).

O termo “Barroco” advém da palavra portuguesa homônima que significa “pérola imperfeita”, ou por extensão jóia falsa. A palavra foi rapidamente introduzida nas línguas francesa e italiana.

Sob muita turbulência política, econômica e cultural, o Período Barroco pôde ser dividido em dois momentos, para alguns bem distintos, já para outros nem tanto.

Em um primeiro momento o chamado Proto-Barroco, há um período mais extravagante considerados por alguns com muitos excessos, aproximadamente entre meados do século XVI e meados do século XVI, sendo este, marcado pelas maiores turbulências.

Este primeiro período Barroco (Proto-Barroco) foi de intensa agitação social, com esforços permanentes em busca do restabelecimento da vida econômica, política e cultural, perdidas devido a tantas turbulências geradas por guerras e conflitos constantes. A Guerra dos Trinta Anos (denominação genérica de uma série de guerras que diversas nações européias travaram entre si a partir de 1618, especialmente na Alemanha, por motivos variados: Rivalidades religiosas, dinásticas, territoriais e comerciais. As rivalidades entre católicos e protestantes e assuntos constitucionais germânicos foram gradualmente transformados em uma luta européia. Apesar de os conflitos religiosos serem a causa direta da guerra, ela envolveu um grande esforço político da Suécia e da França, que procuraram diminuir a força da dinastia dos Habsburgos, que governavam a Áustria. As hostilidades tiveram fim com a assinatura, em 1648, de alguns tratados, que em blocos são chamados de Paz de Vestfália, causando sérios problemas econômicos e demográficos na Europa Central).

O Barroco neste primeiro período emergente teve estilo apaixonado, colorido, extravagante, teatral e musical, pois foi neste momento que nasce a Ópera (gênero artístico, muitas vezes confundido com o gênero musical clássico, mas que na verdade trata-se de um gênero artístico dramático encenado com música).

A Alemanha arrasada pela Guerra dos Trinta Anos foi retirada do cenário artístico e cultural, até século XVIII.

Os ingleses enredados politicamente em uma Guerra Civil originada durante a Revolução Inglesa, devido a embates entre os partidários do rei Charles I e o Parlamento, liderado por Oliver Cromwell (Oliver Cromwell foi militar e político britânico, conhecido como um dos líderes da Guerra Civil Inglesa). A guerra iniciada em 1642 e finalizada em 1649 com a condenação à morte de Charles I (19 de novembro, 1600 – 30 janeiro 1649 foi rei da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda desde 27 de Março de 1625, até sua morte), que trouxera um período de puritanismo que teria fim somente em 1660, com a ascensão ao trono de Charles II.

Na França Louis XIII incumbiu seu ministro-chefe de consolidar todo o poder no governo central, preparando o caminho para a autoridade de Louis XIV.

As colônias do Novo Mundo (Américas) cresciam e prosperavam torando-as, fontes de riquezas e alternativas para o excesso de população na Europa.

Em contraste ao período anterior, a primeira fase do Período Barroco foi marcada por tecidos com maior maleabilidade e fluidez expandindo-se para fora da silhueta humana, o que acarretou por conseqüência um ganho de volume corporal, o contraste das cores também foi bastante evidente, com amplo emprego das cores quentes. Foi durante este período houve a ampla utilização dos Rufos (elementos dos vestuários que poderiam causar estranheza nos dias atuais, mas que para a época estavam associados á estética da rigidez, o intuito rufos eram as de serem grandes golas que tornassem o visual empertigado e austero).

Os calados masculinos, por volta de 1620, os formatos arredondados dos calçados advindos dos chinelos do século anterior trouxeram muito conforto, não só pelo formato, mas também pelos materiais utilizados na confecção, porém estas formas arredondadas começaram a ceder espaço para os modelos com formatos de bicos quadrados, não tão acentuado quanto os ancestrais Bicos de Patos renascentistas, estes modelos demonstraram-se mais comedidos e sensatos, especialmente durante os anos de guerra.

Os modelos com laterais e calcanhares abertos como: Chinelos, mules, ou tamancos são deixados de lado e dão espaço aos modelos fechados, ideais aos tempos turbulentos de guerra e as ruas e estradas cobertas por lama.

Os laços utilizados para atar os calçados, proveniente do Renascimento do período Elisabetano ou Período Isabelino continuaram a ocupar espaço tornando-se ainda mais populares e ganhando novas versões, como os assemelhados as flores elaboradas a partir de fitas, sedas, rendas, cetins e outros tecidos podendo estes serem adornados por pérolas, jóias, ou ainda mesmo simples laços de fitas, sendo este último utilizado por todas as classes sociais ficando apenas, os laços na cor vermelha reservado aos mais pobres, já os laços dos calçados dos mais afortunados podiam combinar com as cores das meias, cintos, ou outros acessórios.

Desta vez os calçados que utilizam-se destes tradicionais laços perderam suas Línguas, ou Lingüetas, que deram espaços há recortes ovais sobre as gáspeas.

Os calçados propriamente ditos foram decorados com bordas picotadas e bordados florais, sendo que ocasionalmente estes bordados poderiam coincidir, ou combinar com os bordados do gibão (peça do vestuário masculino muito comum entre a Idade Média e meados do século XVII, uma espécie de casaco curto, justo e geralmente acolchoado, que cobre do pescoço à cintura utilizado sobre as camisas).

É também neste período, por volta de 1640 que surgiu na Inglaterra os primeiros calçados de amarrar, sendo estes fixados aos pés por atacadores que transpassam gáspea ligando ambas as partes dos talões (partes laterais dos calçados onde são fixadas as gáspeas e os trazeiros), esses modelos caíram nos gostos principalmente dos estudantes da Universidade de Oxford, surgindo daí o nome para o modelo, chamado de Oxford. Este modelo também é conhecido como modelo inglês. As principais características deste modelo é seu trazeiro e a gáspea sobrepostas ao talão, sendo que a gáspea é composta por duas partes, uma destas partes é a biqueira reta, que fica sobreposta à outra, possuindo um fechamento por amarrações.

As primeiras galochas fizeram-se presentes neste período, neste momento as galochas surgem com uma simples estrutura em plano único, sem a utilização de qualquer tipo de salto, pois isto poderia fazer com que as galochas afundassem na lama, aos poucos em uma gradual evolução as galochas acabaram por incorporara biqueiras e reforços nos calcanhares, uma espécie de contrafortes.

Neste período os calçados dos colonos, também seguiram as formas levemente quadradas dos bicos, com a utilização de uma lingüeta reforçada e salto baixo, porém não acompanharam a utilização de laços para a fixação aos pés, uma vez que esses demonstravam-se pouco usuais nos dias duros de trabalhos, para o fechamento, ou fixação destes modelos chamados de Coloniais, que mais tarde seriam chamados de Cromwell, foram utilizadas fivelas presas a correias, ou tiras que eram fixadas nas laterais dos cabedais, que encontravam-se sobre os centros das gáspeas.

Foi também durante este período que os calçados da realeza passaram a utilizar a cor vermelha nos saltos, este fato serviu para demonstrar a condição de realeza até por volta de 1800.

Os calçados femininos eram bastante semelhantes aos masculinos em diversos aspectos, tais como o formato, além de possuírem os calcanhares ligeiramente elevados, porém a realeza feminina não utilizava-se de calçados com saltos na cor vermelha, como assim faziam a realeza masculina. Já os chinelos, mules ou tamancos, que compunham muitos trajes utilizados pela corte eram também, muitos parecidos para ambos os sexos. Há alguns indícios que tiras de linho enceradas eram atadas aos pés a fim de torná-los menores do que realmente eram. Ao exemplo do que já ocorrera, em alguns países do extremo Oriente.

Os sapatos comuns as mulheres que não dispunham de muitas posses, lembrava muito os calçados masculinos dessa classe, que eram calçados pesados confeccionados em couro preto, com saltos médios e atados sobre o peito do pé com laços de fitas. Algumas mulheres ao utilizarem vestidos calçavam chinelos, ou tamancos semelhantes aos utilizados pelos aristocratas, mas só que estes feitos em madeira.

Neste período algumas mulheres ainda utilizavam as desgastadas chopines, para proteger seus calçados da lama e poeira, está prática na utilização destes calçados acabaram por ser incorporadas pelas colônias do Novo Mundo.

As botas predominaram amplamente entre o público masculino, algo muito comum em períodos de guerra e inquisição, já entre o público feminino há pouquíssimos relatos da utilização deste tipo de calçado. As botas com altura até as coxas, muito populares no Período Elisabetano ou Período Isabelino, também perpetuaram-se durante esta época, sendo muito utilizadas na equitação e caça. Estas botas eram confeccionadas com os melhores couros da época, sendo estes macios e flexíveis, seus fechamentos davam-se logo abaixo dos joelhos, para facilitar os movimentos, também apresentavam pequenas rugas, ou pregas próximas aos tornozelos, além das esporas que facilitavam a montaria.

As tradicionais botas de couro e canos longos, com saltos baixos e esporas que foram utilizadas até 1630, eram muito similares as botas atuais de equitação, ou montaria dos dias de hoje, porém a partir de 1630, estas botas começaram a terem seus canos diminuídos e alargados, que acabaram por mostrar os laços, rendas e debruns das meias.

Não só nos fervores dos conflitos, batalhas e cavalaria que as botas fizeram-se presentes, elas também foram empregadas no dia-a-dia dos trabalhadores braçais, logicamente que em versões mais modestas, uma vez que os calçados continuam tendo valores elevados, essas versões econômicas começaram a surgir por volta de 1630, onde pequenos pedaços de couros agora costurados, também foram utilizados na confecção destes modelos, o mesmo artifício também foi utilizado na confecção de botas destinadas a caminhadas, sendo que em algumas destas foram decoradas com franjas, rendas, ou picotados.

O couro foi sem dúvida alguma o material mais utilizado, não só o tradicional couro com flor, mais também o camurça, sendo estes utilizados tanto nos calçados masculinos quanto femininos, havendo também referências aos couros encerados principalmente nas confecções das botas. Os tecidos finos, como sedas e cetins e similares foram muito empregados como foros, para os chinelos muito utilizados pela aristocracia.

As cores predominantes de um modo geral foram às claras, com ênfase ao branco, porém esta regra não aplicou-se as botas, que por sua vez, eram mais comumente encontradas em tons terrosos, com predominância do marrom, embora fossem encontras alguns poucos pares em tons acinzentados.

Com as ampliações das colônias do Novo Mundo e o crescente número de colonos nestas, muitos sapateiros deslocaram-se principalmente para a América, para trabalharem nas mais ricas casas, embora os pobres colonos confeccionassem seus próprios calçados e de seus familiares. Por sua vez estavam sendo enviado ao velho continente, um calçado típico dos índios americano os mocassins.

O Mocassim é originário da América do Norte, criados pelos índios peles-vermelhas americanos, para proteger os pés das baixas temperaturas. As principais características deste modelo são suas costuras nas partes superiores dos bicos, que circunda todo o peito dos pés estendendo-se até os dedos deixando estas costuras a mostra, possuindo fechamento por meio de cadarços, além é claro de se tratar de um modelo fechado, tanto na gáspea, quanto no trazeiro.

Em um segundo momento no Período Barroco, ele é denominado por muitos como: Barroco Clássico, este período teve início com a retomada do trono de Charles II em 1660, após a restauração da monarquia na Inglaterra, Escócia e Irlanda, pouco depois da morte de Oliver Cromwell, este fato trouxe um alivio ao puritanismo imposto por Oliver Cromwell, que governou com o título de Lord Protector da Inglaterra, Escócia e Irlanda, uma vez que Charles II, não implementou uma rígida regência, logo isso também refletiu numa cultura mais eclética e maleável do que a francesa, que seria imposta pelo Rei-Sol, porém após a morte de Charles II, o reinado William e Mary e Anne Queen foram marcados por uma virada para a moral burguesa. Assim nas artes e nos vestuários entre 1690 e 1710 foram mais comedidos e formais do que haviam sidos sob o reinado de Charles II.

O Período Barroco Clássico, também foi marcado na França, com o início da regência de Louis XIV, também conhecido como Rei-Sol, que em virtude de seus gastos desenfreados com o custeio da corte, quase levou o tesouro da corte a falência, porém estes gastos acabaram por financiar diversos artistas como: Pintores, dramaturgos e compositores. Louis XIV também efetuou melhorias no antigo Palácio do Louvre, que acabou por abandonar em favor da nova fundação de Versalhes, construído sobre um antigo pavilhão de caça de Luís XIII, por estes motivos, o centro cultural da Europa começou a mudar da Itália para a França.

Durante o logo imperialismo do Rei-Sol, que na prática exerceu de 1661 a 1715 (54 anos), reorganizou e equipou o exército francês, tornando-o o mais poderoso da Europa e iniciou suas investidas militares contra Rússia, Dinamarca, Países Baixos Espanhóis e outros menores atritos, também iniciou a Guerra pela Sucessão Espanhola, a qual julgava ter direitos, pois considerava ser herança de sua esposa.

Neste período a arte barroca passou por sua fase clássica, onde foi bem mais contida do que o período anterior, o Proto-Barroco, que era bastante extravagante, pois seguirá os princípios da Alta Renascença

Na questão de vestuário o período é marcado pelo abundante uso de fitas, bordados e passadores ricos em detalhes, estes passadores muitas vezes são confundidos com fivelas, também houve uma redução na silhueta, onde muitas estruturas utilizadas por baixo das vestimentas foram reduzidas ou abolidas, essas mudanças podem serrem percebidas mais claramente no corte dos vestuários, do que na decoração superficial. Os trajes ingleses tinham como base os franceses, mas eram menos estruturados e com uma aparência mais suave.

Na França de Louis XIV ocorreu um fato importante no que tange os calçados masculinos, o Rei-Sol descrito como muito belo e elegante era desprovido de grande estatura, tendo cerca de 1,60m, logo utilizava-se dos artifícios dos calçados de saltos, onde foi criado para ele, um modelo que mais tarde seria conhecido como Louis XV, o qual recebeu o nome de seu sucessor, ou seja, o salto Louis XV foi criado para, ou por Louis XIV, o modelo inicialmente tratava-se de um calçado com uma lingüeta avantajada, na qual ostenta uma fivela, ou passador sobre o peito do pé, onde geralmente é transpassada uma fita, ou tira que podia terminar em laço, o modelo ainda possuía saltos de madeira com altura entre 5 e 8 centímetro, esses saltos tinham estrutura semelhante ao que hoje podemos chamar de carretel, porém com a parte trazeira do salto levemente arredondada e com a palheta, ou parte frontal interna do salto na cor vermelha.

Estes saltos eram considerados altos para os padrões até então utilizados pelo público masculino, eles eram bem delgados e confeccionados em madeira e forrados, ou cobertos com o mesmo material e cor do cabedal, ou não… Podendo criar contrates com o cabedal. Estes saltos fizeram-se presentes nos calçados masculinos até por volta de 1700.

Com a volta do exilo, Charles II trouxe da França a moda dos calçados com bicos quadrados, mas por volta de 1670, os calçados começaram a migrar dos bicos quadrados, para os bicos arredondados clássicos. Os saltos com as palhetas (parte frontal interna) vermelhas, lançadas por Louis XIV e muito populares na França, foram direcionados aos magistrados do tribunal inglês deste período.

Durante algum tempo os calçados com laços continuaram a serem utilizados, principalmente nos modelos com aberturas laterais, os laços de fita foram muito populares durante o reinado de Charles II, mais aos poucos foram sendo substituídos pelos modelos dotados de fivelas sobre o peito do pé.

Já volta de 1690 durante o reinado James II sucessor de Charles II e irmão do mesmo, a utilização dos modelos com fivelas eram muito intensa, fossem estas fivelas arredondadas, ou quadradas, sendo que as de formatos quadrados vinham sob intensa utilização e ganhando tamanho chegando por volta de 1710, a serem projetadas para fora da silhueta lateral dos pés, assim ganhando certo arqueamento a fim de compor melhor o visual.

Foi também durante o reinado de Charles II, que surgiu um modelo que inicialmente utilizado por camponeses, que utilizavam-se também de uma ampla fivela sobre uma lingüeta considerável, feitos de couro preto e com salto baixo, um calçados de bico largos, que em alguns momentos foram quadrados e em outros arredondados, porém com largura considerável para proporcionar conforto nas árduas tarefas dos campos, a estes modelos foi dada a denominação de Cromwell, ou Colonial, muitos atribuem a denominação Cromwell, ao líder da Guerra Civil Inglesa Oliver Cromwell.

As substituições dos laços pelas fivelas acabaram por criar a necessidade de cintas, ou tiras que passavam pelas fivelas, fivelas estas que inicialmente possuíam apenas um pino central, que era utilizado para travar a tira e proporcionar o aperto necessário, para que o calçado não caísse dos pés, com o ganho de tamanho das fivelas e com a predominância do formato quadrado, ou retangular acabou-se por perceber a necessidade de não mais apenas um pino para travar as tiras, mas sim, de dois pinos, nesta época já durante o reinado de George I (rei da Grã-Bretanha e da Irlanda desde 1 de agosto de 1714 até sua morte, em 11 de Junho 1727), as fivelas já tinham tamanhos considerados por muitos exagerados, estas por sua vez estavam fixadas sobre lingüetas extravagantes, muitas vezes forradas com tecidos contrastantes.

Os mules neste período foram utilizados por ambos os sexos em lugares fechados, principalmente dentro dos lares, sendo os tecidos finos, como seda e outros os preferidos na forração interna destes calçados.

As cores que demonstraram mais vitalidade foram os tons de pretos e marrons nos calçados masculinos, já nos calçados em couros brancos, com solados e palheta de saltos vermelhas foram bastante utilizados por toda a Europa, além do couro tradicional, os com flor brilhante e acamurçada foram utilizados por todo período.

Até por volta de 1860, os calçados femininos quase sempre seguiam as formas, ou pelo menos, os traços estruturais dos calçados masculinos, mas a partir do momento, em que os calçados masculinos passaram a terem seus bicos mais arredondados e serem implementadas as fivelas sobre os peitos dos pés, os calçados femininos iniciaram um distanciamento entre os modelos masculinos, sendo neste momento que começam a surgir uma silueta mais alongada para os calçados femininos, onde muitos deles passaram a ter um bico alongado e estreito, ou seja, um bico fino, embora algumas mulheres optassem pelos modelos mais tradicionais, semelhantes aos caçados masculinos.

As fivelas muito presentes nos calçados masculinos, não foram incorporadas pelos calçados femininos, uma vez que dificilmente estes calçados eram vistos, por estarem quase sempre cobertos pelos vestidos e também por um motivo prático, pois os pinos das fivelas acabariam por enroscar nas bainhas dos vestidos tornando-se inconvenientes.

Ao exemplo dos saltos dos calçados masculinos, o saltos dos calçados femininos também mantiveram-se bastante delgados e elevados, porém os calçados femininos perderam as laterais abertas, tornando-os totalmente fechados, desde o início do período do Barroco Clássico, ao contrário dos alçados masculinos que mantiveram as laterais abertas até por volta de 1680, já os laços foram encontrados nos calçados femininos durante todo o período.

Durante este período ainda podiam ser encontradas algumas poucas mulheres que ao trafegarem nas ruas enlameadas, ou empoeiradas utilizavam-se das chopines, porém eram mais comuns as Pattens.

Pattens eram muito semelhantes às galochas e tiveram sua origem na idade média, tratava-se de uma espécie de tamanco de madeira, com uma correia que servia para envolver o pé já calçado elevando–o sobre uma plataforma, plataforma está de altura mais modesta, que na maioria das vezes possuíam dois pontos de apoio uma no calcanhar e outra na planta do pé, diferentemente das chopines que havia um único ponto de apoio central. Neste momento houve uma adaptação nas pattens, onde foi criado um cunho que escacharia entre os dois pontos de apoio, tornando-as mais próxima ainda das galochas, isto deveu-se ao fato de que mesmo as cidades já possuírem um crescimento considerável, o problema na pavimentação das ruas piorará e as já enlameadas ruas estavam ainda piores, isso fazia com que os dois pontos de apoio das pattens ficassem enterrados na lama, logo este cunho tornava o solado plano dificultando o atolamento das pattens. Houve algumas adaptações, ou variações nas pattens, aonde algumas chegaram a ganhar um anel metálico interligando os dois pontos de apoio.

As galochas em si haviam tornado-se muito impopulares entre as mulheres deste período, então muitas mulheres trataram de reaproveitá-las de forma que não tivessem a tradicional aparência e trataram de amarrar uma larga tira de brocado, ou de material igual ao dos calçados, a fim fixá-las sob os calçados.

Os materiais mais utilizados nos calçados femininos eram os veludos, sedas e cetins, utilizando-se de muitos bordados, laços e apliques que produziam efeitos listrados.

As botas deste período eram principalmente utilizadas para caminhadas, logo eram confeccionadas em couros resistentes e impermeabilizados por uma espécie de cera.

Por volta de 1660 os canos das botas voltam às formas tradicionais como os conhecemos, onde a boca dos canos não mais era dobrada, porém o comprimento destes canos continua a atingir as coxas. Os bicos destas botas foram dos quadrados no inicio do período aos arredondados do final deste.

Neste período surgem as soft boot, ou as botas acolchoadas, que também tem seus canos com altura até as coxas e são atadas por laçadas em sua frente, ou mesmo ao lado.

As mulheres utilizavam-se das botas apenas para a equitação.

No Novo Mundo, a indústria calçadista americana já tinha estruturado-se e já produzia calçados de couro, havendo registros também de que as sedas eram utilizadas nas confecções de poucos calçados femininos, embora os colonizadores mais afortunados continuassem utilizando calçados provenientes da Inglaterra.


Nov 13

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo XII

Capítulo XII

RENASCIMENTO – O florescer de novos conceitos de vida e calçados.

O Renascimento identifica o período da história européia aproximadamente entre fins do século XIII e meados do século XVII, quando diversas transformações em multiplas áreas da vida humana assinalaram o final da Idade Média e o início da Idade Moderna. Apesar destas transformações terem sidas bem evidentes na cultura, sociedade, economia, política e religião, caracterizando a transição do feudalismo para o capitalismo e significando uma ruptura com as estruturas medievais, o termo é mais comumente empregado para descrever seus efeitos nas artes, na filosofia e na ciência.

A manifestação cultural Renascentista deu-se inicialmente na Toscana, região italiana que compreende entre outras cidades, Florença e Siena, onde a partir destas difundiu-se para o restante da Itália e posteriormente para os demais países da Europa Ocidental, no entanto, a Itália seguiu como centro cultural desta manifestação, uma vez que os mais expressivos atos e fatos tiveram lá, suas ocorrências. Manifestações Renascentistas de grande importância também ocorreram na Inglaterra, Alemanha e Países Baixos, já em Portugal e Espanha, além de suas colônias esta manifestação foi bem menos intensa.

No Renascimento houve três grandes fases:

  • Trecento (século XIV) – Representa a preparação para o Renascimento e é um fenômeno basicamente italiano, mais especificamente da cidade de Florença, pólo político, econômico e cultural da região, embora outros centros também tenham participado do processo, como Pisa e Siena, tornando-os a vanguarda da Europa em termos de economia, cultura e organização social, conduzindo a transformação do modelo medieval para o moderno.
  • Quattrocento (século XV) – Era dourada do Renascimento, onde o humanismo amadureceu e espalhou-se pela Europa trazendo grande revolução na história moderna e originado grande evolução na ciência e na filosofia.
  •  Cinquecento (século XVI) – Fase derradeira da Renascença, quando o movimento transforma-se e expande-se para outras partes da Europa e Roma sobrepuja definitivamente Florença como centro cultural, especialmente a partir do pontificado de Júlio II.

O iminente salto cultural e científico Renascentista originou sentimentos de otimismo, que impulsionará ainda mais o espírito de pesquisa e novas descobertas originando assim, uma nova óptica sobre a espiritualidade excessiva imposta pelo período gótico da Idade Medieval. Esta nova óptica revelou o mundo material e suas belezas naturais e culturais, onde podia-se desfrutar de experiências individuais e nas possibilidades latentes do homem. Além disso, os experimentos democráticos italianos, o crescente prestígio do artista, como um erudito e não mais como um simples artesão, um novo conceito de educação que valorizava os talentos individuais e buscava desenvolver o homem num ser completo e integrado, com a plena expressão de suas faculdades espirituais, morais e físicas, que nutriam sentimentos novos de liberdade social e individual.

Logo esta nova filosofia, que influenciou os mais diversos segmentos da sociedade exerceu também influência nos trajes e calçados, que sofreram profundas modificações estruturais.

Foi durante o Renascimento que os calçados tomam formas e alturas bastante interessantes chegando a serem descritos por muitos, como extremamente ridículos.

As poulaines que obtiveram grande destaque durante a Idade Média seguiram até o século XVI, porém foram perdendo força até chegarem a ter seu fim decretado na França pelo Rei Francisco I (12 de setembro de 1494 – Rambouillet, 31 de julho de 1547 – foi rei da França, coroado em 1 de janeiro de 1515 na Catedral de Reims e governou o país até a sua morte). Já na Inglaterra as poulaines foram proibidas pelo rei Henrique VIII (28 de junho de 1491 — 28 de janeiro de 1547 – foi rei da Inglaterra a partir de 21 de abril de 1509, porém coroado apenas em 24 de junho de 1509, até a sua morte), sendo que este tinha motivos óbvios para proibir a utilização deste calçado, uma vez que tinha pés largos e inchados, logo considerava este tipo de calçado inconveniente e doloroso. A partir destes fatos, não demorou muito para que os calçados se tornassem mais largos e tomassem formas quadradas, a origem desta nova estrutura dos calçados pode ser atribuída inicialmente a Charles VIII (30 de junho de 1470 – 7 de Abril 1498 – foi rei da França de 1483 até sua morte), que segundo relatos possuía seis dedos nos pés, sendo que o modelo de calçado criado para ele foi batizado de “Duck-Billed”, ou Bico de Pato, por sua largura junto aos dedos.

Não demorou muito, para o modelo Bico de Pato criado para o rei Charles VIII caísse no gosto da aristocracia, sendo que a largura deste bico quadrado foi sendo ampliada e durante o reinado de Henrique VIII atingiu uma largura próxima a 20 centímetros, a excessiva largura tinha seu formato mantido, devido aos enchimentos por cabelos, ou musgos. Estes calçados, além de seus bicos quadrados tinham como principais características os cabedais confeccionados em couro preto, com revestimento interno em tecido terroso, no qual este revestimento vinha à tona por meio de fendas, ou recortes contidos nas partes superiores destes cabedais. Coube a rainha Maria Rosa Tudor (18 de março de 1496 – 25 de junho de 1533 – da Inglaterra, que foi rainha da França, duquesa de Suffolk e irmã do rei Henrique VIII da Inglaterra), por um freio na crescente extravagância das larguras dos bicos destes modelos, quando decretou uma lei restringindo a largura destes bicos, a seis polegadas (15,24 centímetros), este ato acabou por precipitar a extinção deste modelo.

Durante o reinado de Isabel (Madrigal de Las Altas Torres, 1451 — Medina del Campo, 1504 – Princesa das Astúrias entre 1468 e1474, Rainha de Castela e Leão entre 1474 e 1504, Rainha de Aragão, Maiorca, Valência, Sicília e Condessa de Barcelona, entre 1479 e 1504 e Rainha de Nápoles em 1504), os calçados Bico de Pato desapareceram definitivamente, surgindo assim uma nova silhueta, mais próxima aos contornos dos pés.

Em virtude de todos estes fatos, os chinelos ganharam espaço neste cenário renascentista, estes modelos eram derivados de uma ânsia pelo conforto, logo eram confeccionados a fim de serem tão macios quanto possíveis, portanto eram utilizados tecidos delicados como sedas, brocados, ou mesmo couros maleáveis bordados, porém nenhum destes eram impermeabilizados, o que impunha muitas dificuldades ao caminhar nas ruas e estradas enlameadas, ou empoeirada das cidades e vilarejos da época, então da necessidade de proteger os calçados e conseqüentemente os pés, surgem as Chopine, ou Zoccoli.

Nesta época dos séculos XV e XVI, a ascensão da burguesia já era um fato consumado e devido ao amplo desenvolvimento do comércio originou-se uma nova classe social. O desenvolvimento deste comércio trouxe diversidade de peças ao vestuário, inclusive aos calçados, tornando-os mais diversificados, refinados e complexos. Os calçados aparecem como peças bastante trabalhadas e passam a serem peças indispensáveis no vestuário. Quase sempre os trajes exigiam calçados adequados e estes eram confeccionados com os mesmos tecidos destes trajes e devidamente ornamentados.

As chopines inicialmente foram modelos utilizados somente pelas mulheres, tendo sua utilização iniciado no final do século XV e estendendo-se pelos séculos XVI e XVII, estes calçados podem ser considerados os precursores definitivos dos saltos altos e das plataformas, que caíram no gosto popular séculos depois, estes modelos eram utilizado como forma de proteção para os calçados, pois eram colocados sobre outros calçados, para que fossem protegidos em ambientes externos

Estes calçados foram muito utilizados em Veneza, tanto pelas cortesãs, como pelas aristocratas, sejam por motivos práticos devido aos freqüentes alagamentos, ou mesmo por terem tornado-se uma referência simbólica ao prestígio cultural e social, pois quanto maior fosse à altura da chopine, maior o status de quem a utilizava. As altas chopines permitiam literalmente que uma dama fulgurasse entre os demais. As chopines venezianas eram esculpidas por verdadeiros artesões, onde acabavam por produzir algumas verdadeiras obras de artes, com entalhes em altos e baixos relevos, por fim, as chopines acabaram por serem proibidas em Veneza, após os relatos de várias mulheres terem sofrido abortos após caírem destes calçados durante a gravidez.

Nas Espanha do século XV, XVI e XVII, as chopines também dominavam sobre qualquer outro modelo de calçado, uma vez que a maior parte do abastecimento de cortiça ao país era destinada a produção destes calçados. Alguns historiadores argumentam que o modelo é originário da Espanha, uma vez que há vários registros e referências históricas datadas destes séculos, porém outros alegam que os modelos eram originários da Turquia. Os modelos espanhóis eram mais cônicos e simétricos, além de possuir uma rica ornamentação com jóias, letras douradas, bordados e outros enfeites metálicos em ouro e prata, isto ao longo sua base.

Durante o período auge das chopines, estas chegaram a atingir mais de 50 cm, este exagero requeria auxílio de até dois serviçais, que auxiliavam tanto no calce, quanto no caminhar com estes modelos.

Esta extravagância foi aprovada pela Igreja, que até então, abominava estes excessos da moda, esta aprovação deve-se ao fato que as chopines dificultavam a dança e reduziam as possibilidades de pecados, porém há controversas na narração de alguns estudiosos, onde alguns atribuem uma marcha instável e deselegante, já outros descrevem que uma mulher poderia até dançar graciosamente utilizando-as.

As chopines garantiram também muitos problemas aos recém casados, pois muitas vezes o noivo só descobria a real estatura de sua noiva após o casamento, o que em muitas situações lavavam ao rompimento, ou anulação do casamento, uma vez que na Inglaterra o vínculo matrimonial poderia ser rompido, caso a noiva agisse de má fé na utilização das chopines durante a cerimônia matrimonial.

As chopines eram normalmente produzidas sob blocos de madeiras ou cortiça, onde eram esculpidas a fim de permitir a colocação dos pés já calçados por outro tipo de calçado, estes modelos em alguns casos eram encapados com os mesmos tecidos dos vestidos, outrora encapados com couro, brocado e veludo, as ornamentações eram feitas com pedras preciosas e semipreciosas, jóias, ouro e prata, havendo também os modelos que permaneciam apenas em madeira ou cortiça, mas esculpidos artisticamente. Por volta do século XVI, estes modelos começam a ganhar versões com duas partes distintas, uma parte superior (cabedal) flexível unida a um solado pesado e duro (madeira, ou cortiça), está versão do modelo ganhou popularidade entre os cavaleiros e tanto mulheres, quanto homens começaram a utilizar-se destes modelos para a equitação.

A invenção do salto é atribuída a Catarina de Médicis (13 de abril de 1519 – 5 de janeiro de 1589 – foi rainha consorte francesa de origem italiana), seu reinado deveu-se ao casamento com o Duque Orléans (Henrique I), ficando viúva aos 40 anos, mas continuo controlando o poder durante os reinados de seus filhos Francisco II, Carlos IX e Henrique III. Apoiou o massacre dos protestantes na trágica noite de São Bartolomeu (o massacre da noite de São Bartolomeu foi um episódio sangrento na repressão aos protestantes na França, pelos reis franceses, católicos. As matanças, organizadas pela casa real francesa, começaram em 24 de agosto de 1572 e duraram vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas, vitimando entre 30 mil e 100 mil protestantes franceses, os chamados huguenotes. Este massacre veio dois anos depois do tratado de paz de Saint-Germain, pelo qual Catarina de Médici tinha oferecido tréguas aos protestantes). Estudiosa da astrologia e magia, seus inimigos a acusavam e procurar auxílios de demônios.

Catarina de Médicis ao desembarcar em Paris, trazia em sua bagagem, vários calçados de saltos, produzidos exclusivamente para ela com o único intuito de deixá-la mais alta, calçados estes confeccionados por um artesão italiano. Logo seu gosto por saltos, acabou sendo absorvido pela aristocracia européia influenciando a moda, que incorporou o salto alto. No século XVII, as mulheres que se utilizassem saltos altos para seduzir ou atrair os homens para os casamentos, eram punidas pelo parlamento inglês como feiticeiras.

Logo as mulheres mais observadoras imaginaram que suas silhuetas poderiam ganhar contornos mais sensuais ao terem seus calcanhares elevados, projetando o tórax para frente e dessa maneira ressaltando os seios. Até 1600 não havia nada que realmente pudesse ser chamado de salto, nos anos de 1590, já haviam produzido alguns saltos baixos em madeiras ou cortiças, antes disso foram utilizados cunhos de cortiça, ou empilhamento de camadas de couros, mas sem muito sucesso devido à instabilidade ocasionada ao caminhar. Uma vez com o surgimento do verdadeiro salto, com o conceito que conhecemos hoje, as outras formas de saltos desaparecem rapidamente. Em pleno século XVII, a fabricação de calçados com saltos originavam calçados com pouca estabilidade, causando freqüente falta de equilíbrio durante a utilização destes, isto devido às falhas na fabricação dos calçados, principalmente na região de encaixe do salto, causando também problemas de emparelhamentos.

Embora o desenvolvimento dos calçados desde o período Romano, já vinha sendo produzidos para pés direitos e esquerdos, porém a parte traseira dos calçados não havia diferenças entre os dois pés, então para dar mais estabilidades aos calçados com saltos, iniciou-se uma maior preocupação com detalhes e diferenciações entre pés esquerdos e direitos, também na parte traseira. Durante a Guerra Civil Americana as botas dos exércitos passam a ser fabricadas com essa diferenciação entre os pés, também na parte traseira e foi muito bem aceita.

Apesar dos saltos terem sido encontrados em botas no final do século XV e início do século XVI, eles só seriam empregados amplamente em outros modelos de calçados no século XVII.

Durante este período as botas e coturno foram deixados de lado pela moda, uma vez que eram utilizados somente na equitação, ou pelas tropas que compunham os exércitos, além é claro dos navegadores.

As botas destinadas a equitação acabaram por ganhar modestos saltos, que auxiliavam no encaixe das botas aos estribos, estas botas tinham canos próximos as alturas dos joelhos e nas partes traseiras dos canos possuíam leves rebaixos, que facilitavam as flexões dos joelhos.

Os coturnos destinados as tropas eram confeccionados em couro macio, ou veludo e eram forrados com peles e seus canos atingiam a altura próxima a 3/4 das pernas, ou seja, pouco abaixo dos joelhos.

Já as botas dos navegados tinham as alturas de seus canos até a metade das coxas, sendo confeccionadas em couro muito macio e eram atadas por finas tiras também em couro.

Por volta de 1590, as os cabedais das botas foram divididos em: Gáspea, talão, traseiro e cano, alguns historiados narram apenas os seguintes partes: Gáspea, traseiro e talão e cano numa mesma peça.

Os couros provenientes de gados foram os materiais mais utilizados, no entanto, não era incomum encontrar calçados tanto masculinos quanto femininos confeccionados em peles de veados, cobra ou ovelhas. A produção e utilização de couro branco em calçados eram comuns principalmente nos calçados femininos.

Os calçados também podiam ser encontrados nos materiais como: Seda, brocado, lã, feltro, tapeçaria e outros tecidos mais encorpados.

Até por volta dos meados do século XVI, os calçados ainda eram na sua grande maioria confeccionados em peça única e mantinham seus elevados valores comerciais, porém daí em diante, estes começaria a serem produzidos não mais em peça única, onde os solados eram produzidos separadamente e posteriormente fixados aos cabedais por meio de costuras, sendo que estes calçados, também podiam ser fixados aos pés por meio de botões, laçadas ou ganchos, por intermédio de perfurações quase precisas (antecedentes aos ilhoses) feitas nestes cabedais.

O Período Elisabetano, ou Período Isabelino, está associado ao reino da rainha Isabel ou Elizabeth I, entre 1558 e 1603 considerado freqüentemente como uma era dourada da história inglesa. Esta época corresponde ao ápice da renascença inglesa, na qual viu-se florescer a literatura e a poesia do país. Este foi também o tempo durante o qual o teatro Elisabetano cresceu e Shakespeare e outros que escreveram peças que rompiam com os estilos ao que a Inglaterra estava acostumada. Foi um período de expansão e da exploração no exterior, enquanto no interior, a Reforma Protestante era estabelecida e defendida contra as forças católicas do continente, que os calçados sofreram novas mudanças estruturais, uma vez que o emprego do salto é disseminado com maior intensidade e alguns modelos ganham uma nova peça a “Língua, ou Lingüeta”, geralmente atadas sob laços que uniam as extremidades das laterais destes calçados sobre o peito do pé.

Neste período os calçados femininos continuavam a ser raramente vistos nos pés femininos, pois estes eram escondidos pelos vestidos que chegavam até o chão, mas estes calçados tinham solados relativamente macios, pois eram compostos de cortiça, com espessura aproximadamente de 1 centímetro, suas formas eram ligeiramente arredondadas. Os materiais mais utilizados na produção dos cabedais continuavam sendo o couro, brocado e seda, cetim, veludo entre outros, geralmente ornamentados com finos bordados coloridos, ou com fios de ouro, em virtude destas possíveis variações de materiais, eram muito comuns grandes variações de preços entre os calçados, que podiam ser bastante macios, ou mesmo bastante ásperos.

Logo estes calçados influenciados pelos saltos utilizados pela rainha Catarina de Médicis, com suas relativas rápidas evoluções, fizeram com que estes saltos ganhassem estabilidade com o emprego da madeira, que por sua vez eram encapados com os mesmos materiais nos quais os cabedais eram produzidos.

Foi também neste Período Elisabetano, mais precisamente em 1579, que os Sapateiros, foram agraciados com o brasão “Armas da Rainha Elizabeth”, ainda neste período, só que no ano de 1642, foi reconhecida a manufatura de calçados na Inglaterra, quando Thomas Pendleton forneceu 4.000 pares de sapatos e 600 pares de botas para o exército, sendo que as campanhas militares desta época requeriam uma demanda substancial de calçados.

O crescimento do comércio e por conseqüência da burguesia fizeram a procura por calçados serem ampliadas rapidamente para os padrões da época, forçando um avanço na produção, onde algumas recém criadas sapatarias começaram a estabelecer normas aos seus artesões, assim originando uma elevação não só na produção, mas também na qualidade.

Logo esta nova filosofia influenciou os mais diversos segmentos da sociedade, que exerceu influência não só nos calçados, mas também na produção do vestuário, trazendo assim profundas modificações estruturais.


Nov 09

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo XI

Capítulo XI

IDADE MÉDIA – Era obscura, mas nem tanto para os calçados.

Idade Média ou Era Medieval é um período histórico tradicionalmente delimitado por marcantes eventos políticos, onde teve início com a desintegração do Império Romano do Ocidente no século V (476 d.C.) e sendo finalizada com a queda do Império Romano do Oriente, mediante a queda de Constantinopla (atual Istambul – Turquia) no século XV (1453 d.C.), após a invasão dos bárbaros comandada pelo sultão Maomé II. Constantinopla neste período havia sido capital do Império Bizantino, ou Império Romano do Oriente.

A Era Medieval pode ser dividida em três outros períodos que são:

  • Idade Média Antiga, que estende-se entre os séculos V e X;
  • Idade Média Plena, que decorre do século XI ao XIII;
  • Idade Média Tardia, que corresponde aos séculos XIV e XV.

O período da Idade Média foi marcado por uma grande mudança de filosofia de vida, onde os pensadores cristãos passaram a aprofundar a fé, logo o domínio da igreja tornou-se evidente e bastante rígido baseando-se em dois pilares: A fé e a razão.

Com estas drásticas mudanças, houve uma grande mudança de comportamento afetando as mais diversas formas de cultura, na área das artes, a ampla maioria tinha cunho religioso, uma vez que muitas delas eram patrocinadas com verbas oriundas da Igreja, na área de conhecimento científicos, tecnológicos e filosóficos, os que detinham estes conhecimentos quase na totalidade eram clérigos, em outras situações, muitas outras formas de cultura foram suprimidas, ou amplamente combatidas, logo estes fatos acabaram por sua vez influenciando também a indumentária, onde os ensinamentos pregados pela Igreja eram bastante austeros ao que tange a proibição da mostra dos corpos, diferentemente dos povos que os antecederam, como os egípcios, gregos e romanos, os quais exibiam constantemente seus corpos, logo esta drástica mudança na indumentária afetou também os calçados.

No início da Idade Média, o Ocidente ainda encontrava-se sob forte influência dos modelos da Roma Antiga, os Francos (tribos germânicas que adentraram o espaço do império romano a partir da Frísia, onde estabeleceram um reino duradouro na área que cobre a maior parte da França dos dias de hoje), que ainda utilizavam calçados com tiras atadas as pernas, onde apenas os líderes utilizavam calçados com bicos ligeiramente elevados.

Algumas escavações arqueológicas localizaram vestígios em covas, com alto grau de preservação, onde foi possível obter uma boa idéia dos calçados dos povos merovíngios (dinastia franca saliana que governou os francos numa região correspondente, grosso modo, à antiga Gália da metade do século V à metade do século VIII. Seus governantes se envolveram com freqüência em guerras civis). Na tumba encontrada em Saint-Denis – França, da Rainha Arégonde, esposa do Rei Clotaire I (497-561), possibilitou reconstruir uma imagem dos calçados dela, como sandálias com tiras de couro transadas nas pernas. Em uma tumba Hordaim, foram descobertos calçados com fivelas em bronze ornamentadas com animais estilizados, devido a este fato podemos ter noção da importância dada à ornamentação dos calçados este período.

Durante o período da Idade Média, os calçados tinham um alto valor comercial, logo estes eram comuns aparecem em testamentos, ou serem objetos de doações a monastérios. Este alto custo dos calçados explica a tradição, na qual o noivo deveria presentear sua futura esposa com um par de calçados bordados antes do casamento.

Registros encontrados no monastério Saint Gall, relatam que mesmo o imperador Carlos Magno (Carlos, O Grande, nascido em 747 foi sucessivamente rei dos Francos, rei dos Lombardos e ainda, o primeiro Imperador do Sacro Império Romano restaurando assim o antigo Império Romano do Ocidente), usava botas simples com tiras nas pernas, embora em cerimônias as botas eram decoradas com pedras preciosas.

Os calçados atados por tiras continuaram em evidência durante alguns séculos da Idade Média devido à influência das culturas antecessoras, até a dinastia carolíngia (nome da dinastia franca que sucedeu aos merovíngios (751), com Pepino, o Breve. Seus últimos representantes reinaram na Alemanha até 911 e na Austrásia até 987), no entanto os calçados femininos tornaram-se mais ornamentados, embora o modelo gallique, ou galoche (espécie de tamanco fechado com solado de madeira) continuassem em uso.

Com a ampla difusão filosófica imposta pela Igreja, às sandálias que esibiam os pés deixam de ser utilizadas, dando espaços às botas altas e baixas, atadas à frente e ao lado para os homens, já para as mulheres, sapatos abertos que tinham formas semelhantes as das sapatilhas conhecidas como: Ghillie – modelo semelhante à sapatilha de balé, este modelo é originário da Irlanda, onde são muito utilizadas pelas mulheres na tradicional dança irlandesa e pelos homens na Scottish Country Dance.

As principais características do tradicional modelo são de ser um calçado rasteiro que deixa o calcanhar totalmente coberto, porém sua gáspea deixa coberto os dedos e as laterais, mas o peito do pé fica praticamente todo descoberto, sendo transpassado por atacadores em couro. O material utilizado é o couro bovino bastante macio, que acrescenta leveza e maleabilidade, por conseqüências originando um calçado bastante confortável. Como já mencionado o cabedal confeccionado em couro com flor(parte externa do couro submetida a tratamentos especiais), já o solado geralmente é confeccionado em couro camurça (tipo de couro felpudo feito com a parte de baixo da pele de cabras, porcos, bezerros, cervídeos e principalmente cordeiros. Exclui-se a camada de pele exterior do animal (mais grossa), e por isso é menos durável que o couro comum, porém com maior maciez), ambos nas cores pretas. As ghillies possui um bico arredondado moldado ao formato do pé, pois são confeccionadas em couro macio, alguns modelos podem possuir como atacadores fitas coloridas.

O material mais utilizado era o couro de gado, mas as botas de qualidade superior eram feitas de couro de cabra, embora pudessem ser bem mais desconfortáveis do que se possa imaginar, mesmo assim, os calçados estavam entre os presentas mais procurados neste período.

Os conselhos religiosos, sob controle da Igreja exigiam a utilização de calçados litúrgicos pelos clérigos, calçados estes que cobriam completamente os pés e eram confeccionados em tecidos. Sendo que o Papa Adriano I (entre os anos de 772 e 795), instituiu o ritual de beijar os pés, sendo que quando alguns clérigos julgaram o rito indigno, o costume já estava estabelecido. Desde então o ”Múleo” passou a ser um modelo próprio dos papas, muito atribuem sua origem na Roma Antiga, os múleos eram os calçados do tipo borzeguim (sapato de cano médio, com cadarços trançados), ou coturno utilizado pelos patrícios e pelos senadores que tivessem exercido alguma magistratura curul, ou seja, de primeira ordem. A cor vermelha dos múleos papais é atribuída pela Igreja Católica como simbolismo do sangue dos mártires e a completa submissão dos papas à autoridade de Jesus Cristo. Os múleos papais são sempre feitos à mão, com cetim, seda, veludo, ou couro  na cor vermelha, os atacadores quando presentes são ornamentados com ouro e as solas feitas do couro. Assim como os nobres, o Papa também utilizava calçados distintos quando em ambiente interno e externo. Em ambientes internos, os calçados eram feitos de veludo, cetim ou seda vermelha, decorados com galões e com uma cruz bordada sobre a gáspea, onde beijar essa cruz não era mais um sinal de servidão, mas uma reverência ao representante de Cristo na Terra. Já em ambientes externos, os papas utilizam sapatos vermelhos lisos, feitos com couro do Marrocos, com a tradicional cruz bordada na gáspea que muitas vezes eram feits com fios de ouro, por vezes ornamentadas rubis. Inicialmente esta cruz era grande, atingindo as laterais do calçados porém ainda no século VIII, suas extremidades foram encurtadas. Em alguns casos onde estes calçados eram confeccionados com solados muito finos, estes eram chamados pantofolas levis.

Por volta do século IX, os soldados começam a utilizar como proteção para suas pernas as leggins (calças justas) de couro, ou de malha metálica chamadas de bamberges, é também neste século que surge um calçado chamado de heuse feito de couro macio e flexível que estendiam-se pernas acima, estes modelos anunciam definitivamente a chegada das botas.

Observado a origem e a evolução da palavra “cordouanier” (mais tarde tornou-se cordonnier ou sapateiro), foi adotada no século XI e tinha como significado, alguém que trabalhava com couro Córdoba, logo este significado estendeu-se a todos outros tipos de couros, sendo que estes caçados cofeccionados em couro Córdoba pelos cordouanier eram destinados á aristrocracia, já os calçados produzidos por “çaveiters”, ou “cobblers” (sapeteiros de menor expressão, ou aqueles que trabalham principalemte com concertos e couros de menor qualidade) eramde menor qualidade e beleza. Ainda neste momento não havia diferenciação durante a produção entre pés direitos e esquedos.

Durante a Idade Média a expanção da utilização dos calçados deu-se durante o século XI, alguns dos modelos de destaque nesta época eram:

  • Estivaux, uma espécie de bota com cano na altura dos tornozelos confeccionada em couro macio e leve, que surgiram em meados do século XI;
  • Chausses, um tipo de bota confeccionado em tecido, reforçada com solados de couro, utilizada em conjunto a um tamanco (suplemento com sola madeira), para utilização nas ruas;
  • Heuses, botas flexíveis em diversos formatos, destinadas ao público masculino, tornando-se muito comum no reinado de Philippe Auguste (1165 – 1223 foi rei dos Francos de 1180 até à sua morte, o sétimo da chamada dinastia dos capetianos directos e um dos monarcas europeus mais poderosos da idade média).

Ainda durante o século XI, com o início das Cruzadas  que foram movimentos militares de caráter parcialmente cristão, que partiram da Europa Ocidental, cujo objetivo era colocar a Terra Santa, nome pelo qual os cristãos denominavam a Palestina e a cidade de Jerusalém sob a soberania dos cristãos. Estes movimentos estenderam-se entre os séculos XI e XIII, época em que a Palestina estava sob controle dos turcos muçulmanos. Logo durante as Cruzadas a convivência dos Cruzados (indivíduos integrantes das Cruzadas), com outras culturas acabou por influnciar entre outros a indumentária,  junto com a mesma os calçados também sofreram mudanças em seus estilos e modelos originando calçados mais decorados.

Com o início do século XII , os calçados ficaram mais longos e passaram a ser chamados de “pigaches”, estes calçados foram os percursores das poulaines e com a volta de alguns integrantes das Cruzadas, estes trouxeram um estilo de calçados um tanto exótico, com bico extremamente longo baseado nos modelos de bico elevados das culturas Síria, Akkadian e Hitita, que refletiam também o momento verticalizado vivido pela Europa Gótica, onde um cavaleiro chamado Robert lê Cornu acabou por levar o crédito por tê-lo criado.

Em virtude destes fatos não demorou muito para que este estilo de calçados caissem no gosto da aristocracia, porém quando este estilo passou a ser desejado também pelo plebeus, mas principalmente pela buguesia, que com sua inicial ascenção devido ao crescimento das cidades, onde estes artesõe, comerciantes e outros começaram a acumularem bens e posses podendo então adquirir certos objetos antes destinado somente à aristocracia, entre estes objetos os mais desejados eram as vestimentas e os calçados. Diante deste fato incontextável, a nobreza respondeu auteramente impondo leis que regulavam a altura e o tamanho do bico de acordo com a classe social onde:

  • ½ pé (equivalente a 15,24 cm)  aos pebleus;
  • 1 pé (equivalente a 30,48 cm) aos burgueses;
  • 1 ½ pés (equivalente a 45,72 cm) aos cavaleiros;
  • 2 pés (equivalente a 60,96 cm) aos nobres;
  • 2 ½ pés (equivalente a 76,20 cm) aos príncipes, que ainda continham correntes de prata, ou ouro atados da ponta dos calçados aos joelhos, para ques estes pudessem caminhar.

Este culto ao comprimento aos bicos dos calçados acabou por originar uma experssão francesa “Viver Sur Um Grand Pied” (Viver Em Calçado Comprido). Surge neste período os sapateiros profissionais responsáveis por prover calçados de qualidades.

As poulaines eram feitas de couro, veludo ou brocado, sendo que os cabedais podiam ter desde recortes que remetiam aos vitrais de igrejas góticas, ou até mesmo, imagens obscenas eram encontradas em algumas. Um pequeno sino, ou um ornamento na forma de um bico de ave freqüentemente balançavam nas pontas dos calçados. No período auge das poulaines haviam até mesmo poulaines militares para combinar com a armadura dos soldados, porém há relatos de que estas poulaines militares traziam dificuldades durante as batalhas, sendo que na batalha de Sempach (na Suíça entre os Suíços confederados e os Austríacos em 1386), onde muitos dos cavaleiros tiveram que cortar as pontas dos seus sapatos porque atrapalhavam no combate.

Usadas na Europa por homens e mulheres da mesma forma, bem como por alguns clérigos, as poulaines foram condenada pelos Bispos, excomungada pelos conselhos religiosos e proibida por alguns reis. Mas o seu status imoral somente fez com que as poulaines mais sedutora virassem moda na corte da Borgonha. As poulaines desapareceram no início do século XVI, após serem utilizadas por quatro séculos.

Até o inicio do século XIV, os calçados não seguiram qualquer padronização de numeração, o que leva a crer que até então, que os calçados eram feitos sobre medida para cada usuário, mas isto começou a mudar durante o reinado de Eduardo I da Inglaterra (17 de Junho de 1239 a 7 de Julho de 1307, rei da Inglaterra da dinastia Plantageneta entre 1272 e 1307 durante o seu reinado, a Inglaterra conquistou e anexou o País de Gales e adquiriu controle sobre a Escócia. Eduardo mostrou ter uma personalidade e estilo de governo bastante diferentes do seu pai, que procurava reinar por consenso e resolvendo crises de forma diplomática).

Há relatos que as poulaines do Duque Leopoldo III da Áustria, teriam influenciado diretamente em sua trágica morte, onde estas teriam dificultado a fuga do Duque durante seu assassinato, devido ao seu tamanho bastante avantajado.

No início do século XIV, mais precisamente no ano de 1305, O Rei Eduardo I, decretou que fosse considerada uma polegada (2,54 cm) a medida de 3 grãos secos de cevada, colocados lado a lado, este decreto visou padronizar as medidas, o que acarretou novas possibilidades negócios, pois a partir daí, com a padronização dos tamanhos passou a ser possível a confecção de calçados para vendas posteriores. Os sapateiros ingleses gostaram da idéia e passaram a produzir pela primeira vez na Europa, calçados em tamanho padrão, baseados no grão de cevada. Desse modo, um calçado medindo 35 grãos de cevada passou a ser conhecido como tamanho 35 e assim por diante.

Os calçados rasteiros dominaram todo período medieval, mas o salto estava começando a emergir como evidenciado na Pintura  “ O casal Arnolfini” de Jan van Eyck (Maastricht, c. 1390 — Bruges, 1441,  foi um pintor flamenco do século XV, irmão de Hubert van Eyck e pupilo de Robert Campin. Foi também o fundador de um estilo pictórico do estilo gótico tardio, influenciando em muito o Renascimento nórdico. Como tal, é visto como o mais célebre dos primitivos flamencos), onde os tamancos de madeira retratados jogados sem cuidados ao chão, no canto esquerdo da tela demonstravam a tendência de calçados com a parte traseira mais elevada do que a parte dianteira. Os calçados com solados de madeira eram utilizados ruas enlameadas, porém estes solados deixavam os calçados muito barulhentos, logo estes eram extremamente proibido usá-los nas igrejas.


Nov 06

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo X

Capítulo X

COPTAS – Pouca variedade, mas muita criatividade em calçados.

Coptas foi o termo utilizado para definir parte da população egípcia que seguiu o cristianismo a partir do século I, estes indivíduos foram um dos principais grupos etno-religiosos do Egito. O termo copta originalmente era utilizado para referir-se aos egípcios, isso no árabe clássico, porém com o passar dos séculos o termo passou a referir-se apenas aos egípcios que passaram a seguir o cristianismo, isso depois que a grande maioria da população egípcia converteu-se ao islamismo, por volta do século VII. Os coptas formam a maior comunidade cristã no Oriente Médio. A civilização copta é a ponte entre a Antigüidade e a Idade Média, uma vez que descendem diretamente dos faraós egípcios.

Escavações arqueológicas do século XIX, na cidade Akhmim (maior cidade do lado leste do rio Nilo no Egito, tendo uma população estimada em 1907 de 23.795, dos quais cerca de um terço eram Coptas), disponibilizaram informações contidas em tecidos das múmias e em seus sarcófagos dos séculos I ao IV, onde pôde ser encontradas ilustrações de indivíduos utilizando sandálias, porém em outros poucos registros mostravam indivíduos descalços.

Registros em estelas (monumentos líticos, ou seja, monumentos de pedras normalmente feitos em um só bloco, contendo representações pictóricas e inscrições) mostram imagens raras de modelo de calçados com bico elevado.

Ao exemplo da Antigüidade egípcia, os coptas também desconheciam os saltos, logo seus calçados como as sandálias, sapatos e botas eram rasteiras. A utilização de botas de cano longo, ou de meio cano eram destinadas aos homens, porém sua utilização bastante restrita.

Os calçados dos coptas apresentavam poucas variedades de modelos, porém demonstravam criatividade na ornamentação, uma vez que utilizavam couros em tons vivos nas cores marrom e vermelha, também utilizavam motivos geométricos em couro dourado e até mesmo solados esculpidos em couros.


Out 30

Calçados… A paixão feminina! – Capítulo IX

Capítulo IX

SANTOS SAPATEIROS – A valorização de uma classe

 

Registros históricos comprovam que o ofício de sapateiro é muito antigo e que inicialmente, quem exercia o ofício de sapateiro era considerado pertencente a uma classe inferior, por exemplo, os egípcios assim os consideravam, pois era uma ocupação oriunda do manejamento de animais abatidos, já os romanos além de desprezar estes trabalhados, ainda forçavam a estes a residirem em bairros isolados criados especialmente para abrigar os sapateiros, curtidores e carniceiros (açougueiros).

Porém com a chegada do cristianismo, o qual pregava a valorização dos pobres e humildes, a situação começou a ser revertida e uma mudança significativa foi empregada no conceito, que até então os povos antigos faziam sobre os sapateiros. A partir de então, os indivíduos que praticavam o ofício de sapateiro começaram a gozar de prestígio crescente até o surgimento do primeiro santo sapateiro no século I: Santo Aniano.

Aniano de Alexandria foi patriarca de Alexandria entre 68 e 82 d.C., convertido e ordenado clérigo egípcio por Marcus o Evangelista, Aniano precedeu o papel do Papa da Igreja Copta e Patriarca da Igreja Ortodoxa de Alexandria, antes do cisma ocorrido em 451 (separação das Igrejas não-calcedonianas, que incluiu a Igreja Apostólica Armênia das Igrejas calcedonianas, que são as Igrejas Ortodoxa e Católica). Foi ordenado o sucessor de São Marcos e foi também a primeira pessoa a ser convertida por este e mais tarde ordenado Arcebispo de Alexandria. Sua hagiografia é narrada no apócrifo “Atos de São Marcos”.

Neste apócrifo é relatado que Marcos, depois de sua viagem a Cirenaica (uma antiga província romana. Situava-se na costa norte da África, entre o Egito e a Numídia. Corresponde à parte oriental da atual Líbia), uma vez que entrou Rakotis subúrbio de Alexandria foi forçado a procurar um sapateiro, depois de danos causadas as suas sandálias. Ele então entrou na sapataria de Aniano, onde este encontrava-se fazendo reparos em outro calçado, quando que por descuido espetou a mão com a agulha que trabalhava e gritou “Eu Heis Theos” (“Deus é um”), pela dor que sentiu, então Marcos aproveitou a oportunidade para pregar o Evangelho e a ferida milagrosamente foi curada durante a pregação. Logo Aniano convidou Marcos para uma visita a sua humilde casa, para que este pudesse pregar para sua família, tendo nesta oportunidade Marcos de batizar o mesmo.

Em conseqüência da deterioração das relações com os não-cristãos, Marcos decidiu deixar Alexandria por um tempo, então ordenou Aniano Arcebispo de Alexandria e também ordenou sete padres e três diáconos, a eles Marcos incumbiu à missão de conduzir a igreja em sua ausência.

Por este motivo, São Aniano é considerado o patrono dos que dedicam-se ao nobre ofício de sapateiro.

Mas ao exemplo de São Aniano, outros sapateiros também foram reconhecidos como santos pela Igreja Católica, como é o caso de São Crispim e São Crispiniano.

Crispim e Crispiniano eram dois irmãos de uma família de romanos que converteram-se ao cristianismo sob o reinado de Diocleciano (Caio Aurélio Valério Diocleciano – 22 de dezembro de 244 a 3 de dezembro de 311 foi um imperador romano, cujo longo reinado tirou o Império Romano da fase desastrosa da história de Roma conhecida como Crise Imperial (235-284). Seu governo de 21 anos caracterizou-se pela capacidade administrativa sustentada no caráter e numa personalidade carismáticas).

O Papa Caio (iniciou seu mandato em 17 de dezembro de 283. Nasceu em Dalmácia em 245, e faleceu decapitado em 22 de abril de 296, sendo transformado em mártir), deu a incumbência aos irmãos Crispim e Crispiniano de converter a Gália (província do Império Romana, uma antiga região povoada pelos gauleses, um pouco mais vasta que a moderna França), logo os irmãos estabeleceram-se em Soissons para trabalhar como sapateiros e pregar a palavra de Deus. Por volta de 287 d.C., quando o general romano Maximianus Herculeus pediu para que renunciassem a sua fé e trabalhassem fazendo ídolos pagãos, os irmãos recusaram-se, a recusa originou ma perseguição freqüente e cruel. Eles foram açoitados, furados com pinos, queimados com óleo fervente e metal fundido, ao fim foram jogados no Rio Aisne, com uma mó de moinho (pedra usada para moer) atada ao pescoço. Então um suposto milagre ocorreu:

A pedra soltou-se e os sapateiros conseguiram chegar à margem do rio sãos e salvos, rezando a Deus. Quando Maximianus soube do ocorrido ordenou aos seus soldados que trouxessem os irmãos a sua presença e cortou-lhes as cabeças.

Embora os seus restos mortais tenham sido deixados aos abutres, os corpos dos sapateiros permaneceram intactos, então dois velhos pedintes deram aos mártires um enterro digno.

Em 649, o Bispo de Soissons, Ansérik, levou os restos dos dois irmãos para a cripta da sua Basílica, que posteriormente foi chamada de Abbaye Saint-Crépin-le-Grand.

Quando a sociedade dos sapateiros foi estabelecida na catedral de Paris, em 1379, pelo Rei Charles-le-Sage (1338 – 1380), os sapateiros elegeram o São Crispim e São Crispiniano seus patronos e que eles formalmente celebrados em 25 de Outubro.

Muitas das imagens de São Crispim e São Crispiniano, ainda são preservados nas capelas de paróquias de igrejas onde as antigas sociedades medievais faziam tributos aos seus santos padroeiros e dedicavam a eles os altares.

Com isso, a corporação dos sapateiros foi sendo fortalecida, chegando a desfrutar, durante a Idade Média de uma importância que antes ninguém jamais pudera imaginar. Organizados de forma complexa, seus dirigentes estipulavam leis que proibiam a indústria clandestina e regularam a concorrência comercial, onde cada mestre possuía sua própria freguesia, que devia ser respeitada pelos demais.

 


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